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X-Men # 03

Como os governos da Terra lidaram com seres humanos geneticamente evoluídos? Acompanhe as origens dos mutantes, e compreenda os sacrifícios dos X-Men para conter a discriminação e o genocídio.

X-Men # 03

Mensagemby Teutates » 18 Jul 2009, 18:03

O REI DAS SOMBRAS

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14 de agosto de 1980 – Cairo, Egito

A cidade do Cairo fervilha não apenas pelo tempo quente e seco, típico da região, mas também em virtude de que, quinze dias atrás, a Knesset aprovou uma lei anexando Jerusalém oriental ao território israelense. Tal medida além de obstar as tratativas de paz, também era uma nítida reação nacionalista à devolução do Sinai ao Egito, território conquistado na Guerra dos seis dias. Com isso, qualquer pessoa que não fosse ou aparentasse ser árabe era malvista. E justamente naqueles dias, dois amigos caminhavam pelas ruas estreitas, fétidas, e repletas de vendedores.

O primeiro, calvo e com sobrancelhas finas, é o riquíssimo Charles Francis Xavier, professor de genética nos Estados Unidos da América. O segundo, com cabelos totalmente brancos e um semblante pesado que expressa grande sofrimento vivido é Erik Magnus Lehnsherr, cientista europeu. Os passos dos dois são tranquilos, não temendo qualquer forma de retaliação ou demonstração de desprezo.

_ Estou dizendo Charles, a vida depois dos quarenta passa muito mais rápida.

_ Talvez. Em setembro farei 38, mas não ligo de envelhecer. Ainda tenho muito o que fazer nesta vida.

_ Eu não posso dizer o mesmo. Não sei qual é o meu lugar neste mundo. – os olhos de Magnus estão distantes, como se buscando o futuro.

_ Seu lugar é ao lado dos que são como você Magnus. E dos que aderem a nossa causa. – Charles coloca a mão no ombro esquerdo do amigo, notando sua ansiedade.

_ Ou seja, você quer que eu continue trabalhando com você e MacTargget. – Magnus para e encara-o.

_ Sim, é o que eu gostaria. Nossas pesquisas avançaram em três meses mais do que nos últimos três anos! Descobrimos que a vacina desenvolvida pelo governo estadunidense nos anos cinquenta para que os poderes dos mutantes permaneçam inertes está cada vez mais fraca e mais alguns anos será totalmente ineficaz... A próxima geração manifestará seus poderes sem qualquer freio, e assim que o fluxo de mutantes no mundo aumentar exponencialmente, com certeza, adotarão medidas de contenção.

_ O que será intolerável. Não podemos permitir que novos campos de extermínio existam. – Magnus range os dentes e franze a testa, sua irritação torna-se ainda mais evidente.

_ Acalme-se meu amigo, não creio que eles adotariam esse tipo de medida. Penso que tentariam cadastrar os mutantes e talvez usassem técnicas de lavagem cerebral para controlá-los...

_ Não seja tolo Charles, os “homo sapiens” são podres. O ódio e a discriminação sempre estarão presentes em seus corações corrompidos. É verdade que buscarão dominar alguns de nós: os mais poderosos e os que tenham alguma utilidade para seus propósitos egoístas. O restante será morto da forma mais cruel possível. Novas câmaras de gás para uma nova “ameaça”.

_ Isso jamais acontecerá! Não permitiremos! – pela primeira vez Charles eleva a voz, pois sua mente vislumbra a possibilidade proposta pelo amigo, que observa o momentâneo descontrole do professor.

_ Agora sou eu que pede que se acalme Charles. Concentremo-nos no presente e continuemos a testar a máquina que criamos, que foi o motivo de termos vindo nesta terra miserável.

Charles Xavier maneia a cabeça, concordando com Magnus e se tranquiliza. Então, do bolso de sua calça retira um aparelho do tamanho de uma calculadora, puxa sua antena e o liga. Ouve-se o barulho de um radar e uma pequena tela no centro do aparelho começa a iluminar quatro pontos verdes, dois deles juntos no centro da tela, os dois outros juntos num raio próximo.

_ Os dois sinais estão mais fortes Magnus. Parece que você estava certo, é possível captar a energia mutante por sinais elétricos.

_ Nosso corpo é formado por energia Charles. O bater de um coração, o correr do sangue, os movimentos do corpo, as ondas sônicas quando se fala, são todas energias disponíveis no interior do ser humano que podem ser captadas e analisadas. O mesmo ocorre quando um mutante usa seus poderes, que é o que o aparelho rastreia. – Magnus se aproxima do aparelho, e observa que na tela estão presentes os dois sinais representativos da utilização de seus próprios poderes e também os do colega, motivo pelo qual, encarando-o, indaga: – Por quê está usando seus poderes Xavier?

_ Eu poderia fazer a mesma pergunta Magnus. Mas respeito a privacidade de meus amigos. – Charles percebe a insinuação velada contra ele lançada.

_ Realmente respeita? Não estaria por acaso invadindo minha mente, buscando o motivo para que eu concebesse tal aparelho? – a insinuação torna-se explícita, a tensão entre os dois aumenta.

_ Eu não preciso invadir sua mente para saber que criou o aparelho para encontrar os gêmeos. – a resposta de Charles é ríspida e direta.

_ Como você sabe deles? – Magnus perde o controle e aperta o pescoço de Charles, esganando-o.

_ Você tem pesadelos Magnus, e você fala dos dois quando os tem! – com um empurrão, ele se desvencilha, e tal revelação faz Erik se curvar, demonstrando a não superação de uma perda. Charles se aproxima, e abraça o amigo, enquanto diz: – Eu vou te dizer porque estava usando meus poderes: estava tentando localizar os mutantes, baseado nos sinais do aparelho, ampliando-os na tentativa de sentir seus padrões cerebrais.

Magnus permanece com os olhos fechados, que lacrimejam. Então ele se endireita, limpa os olhos, pega o aparelho da mão de Charles e, como se nada tivesse sido dito, continua sua marcha na direção indicada pelo rastreador. O professor maneia de forma negativa com a cabeça, e o segue. Dezenas de transeuntes comentam a bizarra cena que presenciaram, e praguejam contra os turistas. Dois assassinos profissionais, todavia, demonstram grande temor, pois as armas que usariam para matar os dois estrangeiros misteriosamente permaneceram presas aos respectivos coldres, até que os alvos não pudessem mais serem atingidos.

Quatro minutos depois Xavier e Magnus estão diante de um prédio que para os padrões do Cairo demonstra que seus frequentadores são pessoas ou muito ricas, ou muito influentes. Os dois ingressam no mesmo, e notam que o andar térreo contem um restaurante, o qual está arejado e fresco, mesmo com os ventiladores não funcionando e sem qualquer vento entrando pelas janelas. Muitos observam a chegada dos dois estrangeiros, e o maître indica uma mesa para que os dois se sentem.

_ O aparelho indica que os dois sinais estão vindo daquele canto escuro do restaurante Magnus. – Charles faz a indicação com o olhar, e é possível notar a presença de duas pessoas numa mesa grande e repleta de pães, frios e vinho.

Uma das pessoas é um egípcio obeso, calvo, com bigode, usando um terno de fino trato azulado, chapéu e óculos escuros. Seu sorriso é obsceno, e o temor que inflige nos funcionários é evidente. Ao seu lado se encontra uma criança negra de cabelos totalmente brancos, olhos azuis, com aproximadamente dois anos de idade, trajando trapos e portando algemas e uma coleira presa ao pescoço, cujas correntes estão atadas ao sopé da mesa.

_ Aquela menina Charles! É ela quem está gerando esta variação climática no interior do prédio!

_ Sim Magnus, mas aquela corrente, é como se fosse propriedade daquele homem. Sua escrava!

_ Aprisionamento nunca mais. NUNCA MAIS! – Magnus grita enfurecido, levantando-se da cadeira e gesticulando na direção do homem. Com isso, dois ventiladores se desprendem do teto e são arremessados na direção do mesmo, que permanece inerte. Surpreendentemente, todavia, os objetos metálicos atravessam o corpo do homem, chocando-se violentamente na parede, como se ele não estivesse ali. Todos os que estavam no restaurante começam a fugir em desespero. E Magnus indaga, surpreso: – Mas como...?

_ Não era ele, era uma projeção mental! Ele deve ter invadido nossas mentes! – responde aflitamente Charles, que logo em seguida cai de joelhos, levando as mãos à cabeça. O mesmo ocorre com Magnus.

Os olhos dos dois amigos não veem mais o interior do restaurante, mas apenas areia do deserto em meio a um céu enegrecido e sem estrelas. Flutuando sobre os dois, a figura do egípcio, com os braços cruzados.

_ Bem-vindos ao plano astral Charles Xavier e Erik Lehnsherr. Meu nome é Amahl Farouk, mas sou conhecido no submundo do Cairo como o Rei das Sombras porque governo esta cidade. Vocês já sabiam que eu era um mutante, mas percebo que não tinham conhecimento do que eu era capaz de fazer. Isso demonstra como são tolos; invadir o território de uma pessoa, com arrogância e prepotência, sem saber o que encontrarão. Logo que pousaram no Cairo os pressenti com meus poderes, pois sou o telepata mais poderoso da África, provavelmente do mundo. Sabia que buscavam os mutantes identificados por seu aparelho, para que se unissem numa inglória luta contra os humanos comuns. Não tenho o menor interesse em participar de projetos humanitários, isto é para altruístas. E não posso permitir que minha pequena Ororo parta com vocês, tenho planos especiais para ela quando crescer um pouco mais. Qual líder não gostaria de ter uma escrava que controla o clima? Mas eu sou benevolente. Permitirei que se desistam de seus ideais filantrópicos e se aliem a mim. Que sejam meus braços na América e Europa. Que espalhemos o terror das sombras pela Terra!

Xavier se ergue em meio aquele ambiente criado pela mente de Farouk. O Rei das Sombras estava errado ao considera-lo um telepata inferior, ao contrário, a mente de Charles Xavier é poderosíssima, suas habilidades são tão fortes que a experiência do plano astral já pode ser assimilada, compreendida, e possível de ser utilizada contra o próprio Rei. Xavier nunca havia encontrado um mutante maligno antes, nunca havia encontrado um ser que utilizasse seus poderes para seu próprio benefício, inescrupulosamente, visando o lucro, a ganância, usando pessoas inocentes. A imagem da pequena Ororo vem a tona, e isso apenas o fortalece. Ele cria uma armadura prateada para sua projeção astral, uma armadura escarlate para Magnus, e em seguida se lança contra o Rei das Sombras: – Nunca me aliarei a um verme como você, Farouk!

O Rei das Sombras se defende da investida, criando uma armadura negra, com escudo-torre e espada larga, lançando longe Charles Xavier. Seus olhos brilham por detrás do capacete, e as mentes de Xavier e Magnus ardem com o ataque mental.

Charles se vê num quarto de hospital. A cidade é Jerusalém. Ele está em uma cadeira de rodas. Na cama, sua mulher, Gabrielle Haller, o acusa injustamente. Ele chora. “Você é o culpado Charles”, ela diz, “David nunca terá uma vida normal, e a culpa é sua”. Em meio ao plano astral, Charles Xavier chora novamente.

Magnus se vê caminhando por uma cidade alemã. Com apenas quatro anos, está sendo exposto para a população, juntamente com vários outros judeus. Suas roupas são trapos, seus pés estão esfolados, seus cabelos raspados, uma tatuagem marca seu braço esquerdo, e seu estômago ronca de fome. Dos alemães que os observam passar, alguns cospem, muitos gritam, e ninguém oferece um pão duro sequer. Ele cai. No instante seguinte recebe uma chicotada nas costas, e um monstro grita para que se levante. Magnus está cansado da humilhação, e faz a bala na agulha do revólver do soldado ser disparada sem que o gatilho seja acionado. Isso é simples para ele, fazer truques envolvendo metais, e a adrenalina da situação apenas facilita seu controle. O pé do soldado se torna um lago vermelho, mas logo é o rosto de Magnus que se torna preto e vermelho, com as solas dos soldados o atingindo fortemente. Escurece. Luzes fosforescentes se acendem, e o cheiro de produtos químicos invadem seus pulmões. “Vamos ver o que você pode me oferecer, pequenino”, diz o Anjo da Morte, com o bisturi na mão. Magnus grita novamente, tão alto como gritou em 1940.

_ Suas mentes são fracas, e eu sou o Rei das Sombras. Não há como me derrotarem. Desistam e me declarem senhor, para que eu poupe suas vidas. – esbraveja Amahl Farouk.

Subitamente, as imagens traumáticas cessam. Farouk grita no plano astral, que se desfaz, reflexo do mundo físico, em virtude de um relâmpago que lhe atinge as costas. O fogo queima em seu terno, e a criança de apenas dois anos observa o homem gordo e opressor tentar retirar a vestimenta, enquanto seu nariz sangra e os óculos caem ao chão. Os olhos da criança permanecem inertes, e o azulado da íris desaparece em meio ao branco que cobre todo o globo ocular, enquanto uma tempestade se forma no interior do prédio.

Charles se recupera do ataque mental de Farouk e se entristece ao perceber que a única solução para aquela situação é atacar seu inimigo com a mesma intensidade que foi ofendido. Tomado pelas emoções que foram trazidas de seu subconsciente, lança uma rajada mental sobre a mente do Rei das Sombras, lobotomizando-o.

Magnus também se recupera da investida do Rei das Sombras, e sua reação ao ataque mental é igualmente agressiva. Com o rosto enraivecido, gesticula para o teto, que começa a desabar sobre o corpo de Farouk. Encanamentos de água e gás se tornam pontiagudos e perfuram pele e órgãos do egípcio, matando-o com incrível sofrimento. Vigas empurram o corpo para as profundezas, a sepultura do maligno mutante. A menina, porém, é protegida por um campo magnético que repele a madeira, metal e demais objetos que despencam do teto do edifício, que vem a desabar por completo minutos depois.

Do lado de fora, inúmeros transeuntes cochicham sobre o desabamento do quartel general do Rei das Sombras, e não tomam providência alguma para salvar o criminoso. Eles sentem em seus corações que o período de tirania e abuso mental chegou ao fim. Alguns já confabulam para saber quem assumirá seu lugar no controle do crime. Assim, também não fazem nada para impedir a passagem de Charles Xavier, que segura no colo a pequena criança que o abraça com ternura, e de Magnus, que começa a moldar, com os metais do edifício, um elmo vermelho nos mesmos padrões da armadura astral que Xavier desenvolvera.
Teutates
 

Re: X-Men # 03

Mensagemby João-Resgate » 21 Jul 2009, 11:50

sensacional!!! Uma ótima idéia usar o Rei das Sombras nesse capítulo Flávio!
A batalha mental e as repercusões, como a criação do famoso capacete do Magneto e as sementes que um dia irão fazê-lo agir como um terrorista tbm foram muito bem plantadas.
E a Ororo fará parte da primeira formação dos X-men? Seria muito legal isso!
Meus parabéns por mais essa edição Flávio! Sinto muita falta dos seus textos cara!
Abraços e até mais!
Projetos E-book. Venha fazer parte!!!
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Re: X-Men # 03

Mensagemby Black Raven » 11 Ago 2009, 23:56

Muito bom, cara!! Gostei da ambientação da fic! É sempre legal ver Charles e Magnus lado a lado...
Emocionante a parte em que O Rei faz com que Magnus se veja novamento no campo de concentração, e "atira" no pe´do soldado.
E a pequena Ororo...mal sabe ela o que o futuro a reserva...
Abraço, cara!!!
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