
Adoração. Parte 1.
Por João Norberto da Silva.
“Num passado distante um drakkar, como eram chamadas as embarcações vikings, enfrentava a fúria de uma terrível tempestade, sendo a única ainda inteira, uma vez que as cinco demais já haviam sucumbido aos ventos cortantes.
- <<Não desistam irmãos!!!>>[1] - As gotas da chuva eram tão grandes quanto cerejas e açoitavam os corpos dos guerreiros que continuavam a remar, sem diminuir seu ritmo, eles não se permitiam nem mesmo a mais breve pausa. - <<Pelos deuses de Asgard!!! Ou chegamos a terra firme ou entraremos nos salões do Valhala com nossas cabeças erguidas!!! Continuem!!!>>
- <<Ragnar!!! Sei que tu és nosso líder, mas é impossível vencer a tormenta!!!>>
- <<Repita mais uma vez tal tolice!!!>> - O enorme guerreiro cobriu a distância que o separava de seu segundo em comando tão rápido, que o outro só percebeu quando ambos se encontraram olhando um nos olhos do outro. - Por acaso não tens confiança nos desígnios divinos, Olaf? O próprio Thor descerá até nosso barco e nos ajudará da luta vindoura!!
- <<Ainda crês nessa sandice? Saímos como loucos em meio a uma tempestade dessas, apenas porque uma infante qualquer teve um pesadelo com um de nossos povoados sendo atacado por gigantes do gelo! Isso não é sobre confiança, mas sobre loucura!!>>
- <<Pede perdão a Thor Olaf!>> - Ragnar apertava o cabo de seu machado, tendo que se conter demais para não partir a cabeça do outro ali mesmo, somente a consciência de que Olaf seria de grande valia na batalha que estava por vir é que segurava sua mão. - <<Pois em breve ele chegará e seu castigo será terrível!!!>>
- <<Por favor!!>> - Dando um passo para trás Olaf procurava ser a voz da razão. - <<Tu bem sabes que mais ninguém tem visto os deuses caminharem sobre a terra!!! Eles nos abandonaram à própria sorte!! E hoje me dia temos que nos virar sem eles!!!>>
- <<Pára tua língua venenosa, cão bastardo!!! Eu juro Olaf! Abra mais uma vez a boca e...>>
- <<E o quê Ragnar?!!!>> - O viking percebera que já tinha ido longe demais e que não poderia voltar atrás sem parecer um covarde perante seus irmãos, estes já até esquecidos de remar, deixando o drakkar ao sabor dos ventos. - <<Tu bem sabes que os deuses morreram!!!!!!>>
- <<Maldito!!!!!!!!!! Morra em nome de THOR!!!!>>- Num movimento tão rápido quanto o raio que iluminou o barco, Ragnar ergueu o machado e desferiu seu golpe certeiro.
Olaf fechou os olhos, sabendo que não voltaria a abri-los, porém não foi isso que aconteceu.
- Contém tua mão ó bravo guerreiro... - Para surpresa de todos, um terceiro homem surgira, segurando o punho de Ragnar, impedindo que este golpeasse Olaf, ele falava com uma voz de trovão que emanava mais que liderança, emanava divindade. - Todas as armas serão necessárias na contenda que se aproxima...
Enquanto a tempestade acalmava e o barco cassava de balançar, os homens fitavam incrédulos a figura que surgira diante deles, para encerrar a discussão entre seus líderes. O recém-chegado possuía uma longa barba e um cabelo que ia até o meio de suas costas em uma trança loura impecável, sua armadura acinzentada era ornada com um cinturão e dois braceletes dourados, nas costas um manto vermelho ainda tremia com o pouco vento que insistia em soprar, mas o que mais surpreendeu e chamou a atenção dos presentes era o fato de que suas botas não tocavam o chão do drakkar.
- Agora deixemos as pendengas de lado, bravos guerreiros, pois a gloriosa batalha se avizinha! - Ele ergueu sua mão direita e esta se mostrou fechada no cabo ornamentado com runas de um martelo de guerra. - Que o poderoso Mjolnir possa se banhar no sangue dos gigantes covardes que desceram até Midgard para se aproveitarem dos fracos!!!
O barco começou a se mover sozinho, os ventos que há pouco quase o destruíram agora ajudavam o mesmo a se mover na direção de uma faixa de terra que começava a surgir diante dos olhos ressabiados dos vikings.
- Descansai por ora irmãos... Os ventos agora serão gentis e nos levarão ao nosso destino. - Ele se voltou para Ragnar, que não conseguia desviar seus olhos. - És um crente e fiel guerreiro... Lutaremos lado a lado na batalha... - Enquanto o outro abria um enorme sorriso e dava um passo para o lado, Olaf permanecia com os olhos arregalados. - Quanto a ti... Que a sua descrença agora se dissipe... Permanecerás aqui após aportarmos e voltará, mesmo que sozinho, para levar aos povos a verdade sobre eu e meus pares... Diga a todos que eu surgi e que lutei ao lado de meus irmãos de Midgard, tendo a todos eles como meus iguais...
- <<Si-sim... A-assim farei meu lorde... Todos conhecerão vossa glória... A glória de...”>>
XXX
- <Thor! Você consegue imaginar algo assim Don?>[2] - Num café em Berlim um casal de estudantes da Universidade de Humboldt tomam seu café da manhã. - <Um deus que realmente caminhou ao lado das pessoas que tinham fé nele... Isso seria tão fantástico nos dias de hoje... Já parou prá pensar nas possibilidades?>
- <Claro querida... Eu imagino isso todos os dias... EI!> - Jane Foster já namora Donald Blake há tempo suficiente para perceber quando está sendo ignorada e arranca o jornal que o outro está lendo com tanto interesse.
- <Ah! Tinha que ser...> - Ela espalha as páginas sobre a mesa, deixando exposta a manchete e a notícia que atraíra tanto a atenção de seu namorado. - <O tal “deus do dinheiro”... Francamente né Don?>
- <Calma Jan...> - O rapaz procura apaziguar a raiva da namorada. - <Você tem que admitir que esses números são impressionantes... Em poucos meses o cara conseguiu um monte de seguidores e...>
- <“Entregue sua alma para o deus do dinheiro e consiga a vida que sempre quis”...> - Com tom de deboche ela repete as promessas que ouvira de algumas pessoas que aderiram à “nova moda”. - <“Poder, mulheres, dinheiro... Mais poder... Tudo o que sempre quis estará ao seu alcance...” e blá-blá-blá... Faça-me o favor né?>
- <É tão ou mais estranho que adorar deuses nórdicos?>
- <Você quer mesmo me irritar hoje né?>
A garota se levanta, saindo do café quase trombando com os garçons, sendo seguida por seu namorado, que teve de pagar a conta antes, claro, apenas a alcançando alguns quarteirões depois.
- <Ufa... Você tá fazendo muitos exercícios heim? Foi difícil te alcançar...>
- <Cai fora...>
- <Poxa amor... Nem é prá tanto...>
- <Você sabe como foi difícil prá mim... Como meus pais reagiram ao ver o pequeno altar que eu tinha no meu quarto e ainda vem com essas gracinhas... Se quer tanto seguir o “deus do dinheiro” vai logo comprar aquela fita pornô e me deixa em paz...>
- <Pára com isso meu amor...> - Vendo as lágrimas que surgem nos olhos de sua namorada o rapaz a toma em um abraço carinhoso. - <Me desculpa tá? Falei sem pensar, mas você há de convir que exagerou quando arrancou o jornal das minhas mãos né? Eu só tava lendo a notícia... Não quer dizer que eu vou “entregar minha alma” e tals...>
- <Sei...> - Enquanto se deixa abraçar, Jane sorrateiramente leva sua mão até o pequeno pingente que ela traz em seu pescoço, um pingente dourado em forma de martelo. - <Certo... Vamos voltar prá universidade então que eu tenho muito trabalho prá fazer...>
- <Como quiser meu amor...>
A garota se pergunta pela décima vez por que ainda namora com o rapaz, ainda mais com ele não levando a sério sua devoção pelos deuses nórdicos, mas quando ela sente o abraço e o carinho dele, ainda mais tendo tido uma infância tão solitária, ela se deixa levar, torcendo para que sua fé seja recompensada um dia.
Ela mal sabe que o dia será hoje.
XXX
- Então? Como vão os números?
No escritório central da Igreja do Toque Real, localizada na Rua Leipziger Straß, uma reunião ocorre entre o fundador da seita e seu tesoureiro, ambos analisando as últimas contribuições recebidas.
- <Nossas contas receberam quantias realmente incríveis nos últimos dias Jacob...> - O franzino contador, que entrara há poucos meses para o corpo principal da Igreja, está realmente impressionado e não esconde isso. - <A idéia do vídeo foi sensacional... Nada como um pouco de publicidade e escândalos para atrair os holofotes... E também o dinheiro dos fiéis...>
- Sim... Foi uma ótima idéia e muito prazerosa, devo acrescentar... Bem... Então nosso capital está crescendo?
- <Estratosfericamente...>
- Ótimo... Vou começar a preparar os sorteios para que alguns dos nossos fiéis estrelem o segundo DVD... - De repente Jacob pára de falar e olha através da janela de seu escritório, cerrando os olhos como quem tenta ver algo ao longe. - Hum... Teremos que abreviar nossa conversa... Assuntos importantes denotam minha atenção... Portanto...
Entendendo o recado, o tesoureiro sai imediatamente deixando seu líder a sós com seus pensamentos.
Faz poucos meses desde que Jacob criara a Igreja do Toque Real, cujos dogmas incluem a entrega total ao pouco identificado deus do dinheiro, que ele alega estar dentro de cada um dos convertidos, ajudando os mesmos a alcançar de forma rápida e palpável tudo o que eles quiserem “Acredite e obtenha tudo o que sempre quis... O que o seu coração e seu corpo quiserem será seu. Sua alma estará em boas mãos.” Essa e outras frases são comumente ouvidas nos cultos que se realizam quase que diariamente.
Tido como uma das novas e passageiras religiões modernas, Jacob tomou uma decisão radical para chamar a atenção daqueles que insistiam em ignorar sua crença nos ganhos materiais que seu deus oferece.
Ele viajou por vários países, entrando em contato com agentes de modelos que costumam colocar suas fotos nuas na internet e de atrizes pornôs, para criar um filme onde ele próprio mostra tudo o que sua crença lhe concedeu, poder, dinheiro e prazer, o seu mantra pessoal, recitado ininterruptamente durante as cenas não só por ele, como pelas mulheres com quem ele estava.
O lançamento do DVD atraiu uma cobertura completa de várias mídias, bem como o ódio de religiões que, segundo as próprias palavras de Jacob, se irritaram por ele conseguir o que elas mesmas não tinham coragem de oferecer a seus fiéis. O sucesso foi imediato e várias pessoas ao redor do mundo começaram a abraçar a nova religião, desde os mais pobres até os grandes empresários, que viram a oportunidade de enriquecerem ainda mais.
Enriquecimento esse que foi ainda mais sentido pelos cofres da ITR, sigla usada por aqueles que estão a mais tempo ao lado de Jacob, que o ajudaram a dar seus primeiros passos.
Jacob pisca várias vezes e quando volta seus pensamentos para o presente, continua a olhar fixamente para o lado de fora de seu escritório. Ele vê um tipo de névoa que cobre lentamente a cidade, contrastando com o belo dia de Sol.
- Então começou... Ficaremos mais uma vez frente a frente irmão... Mas nos dias de hoje a batalha acontecerá no coração dos homens... E eu vencerei...
XXX
“Num passado distante...
Os portões dourados de Asgard se abriram, depois que Heimdall, o guardião da ponte Bifrost, reconheceu quem se aproximava do reino dos deuses.
- Saudações filho do todo-poderoso Odin! - O asgardiano ergueu sua espada em sinal de respeito, admiração e amizade. - Que suas batalhas tenham sido gloriosas!
- Salve Heimdall, aquele cujos olhos são os mais aguçados que nossa terra já produziu! De fato a batalha em Midgard findou-se com a vitória das forças da luz e hoje nobres guerreiros hão de adentrar o Valhala com as bençãos do deus do trovão!
- Vosso pai e irmão o aguardam no salão principal das festividades... - Vendo certa decepção no rosto do outro deus, Heimdall se apressou em completar. - Vossa mãe insistiu durante vários dias para que uma grande celebração fosse realizada em teu nome e em nome de teus feitos...
- Assim é a doce Frigga... Preferia eu mil vezes me achegar aos meus aposentos e entregar-me aos carinhos de minha amada Sif, mas se é o desejo de minha mãe ver-me em mais um banquete, que assim seja...
O deus do trovão partiu para os salões dourados, onde as principais festividades asgardianas aconteciam e, sendo recepcionado por sua esposa, logo estava sentando ao lado de seus pais, contando como fora a batalha contra os gigantes de gelo que haviam destruído várias aldeias de Midgard.
- Ragnar foi um verdadeiro guerreiro e o último a perecer diante dos machados dos Gigantes de Gelo, fiz questão de guiá-lo eu mesmo até os portões do Valhala... - Todos prestavam atenção total ao trovejante, enquanto este erguia uma enorme caneca de hidromel. - Que todos se ergam numa saudação àquele que honrou o nome de vossos ancestrais e também a todos nós, deuses de Asgard!!!
Os urros ensurdecedores dos deuses preencheram o salão, chegando até mesmo às ruas mais distantes da sagrada cidade dos deuses.
- Hum... - Depois de entornar mais uma caneca, deixando o braço pendido para o lado a fim de que um dos serviçais viesse enchê-la, Thor olhou para os lados e finalmente deu pela falta de alguém. - Espera... Onde está o traiçoeiro? - Os demais deuses olhavam para o filho de Odin, deixando as festividades de lado por um momento. - Onde está meu irmão? Estará Loki tramando alguma nova traição?
Longe dali o deus das trapaças se encontrava diante de um caldeirão fumegante, cujas fumaças eram prontamente aspiradas por ele. Ao seu redor alguns corpos mutilados de crianças de Midgard, enganadas e reunidas pelo traiçoeiro para que seus sangues puros pudessem, quando misturados com os ingredientes corretos, fazer com que ele pudesse vislumbrar os futuros mais longínquos.
Após alguns minutos de intensa concentração, Loki começou a respirar com dificuldade, suando em abundância e tentando se livrar das terríveis visões às quais era submetido. Seus gritos chamaram a atenção de alguns transeuntes que, preocupados por saber que naquela bela casa morava um dos filhos de Odin, correram até o salão de festas para avisar seu senhor de que algo poderia estar acontecendo com o deus das trapaças.
- Por Odin!!! - Assim que Thor, o primeiro a chegar ao local, viu toda a carnificina provocada por seu meio irmão, levou a mão sobre seu nariz e boca, tencionando resistir àquele horror. - O que fizeste dessa vez irmão?
Ele ergueu o corpo de Loki, caído entre os corpos sem vida das crianças, e o colocou sentado em uma poltrona, ao passo que os demais deuses, junto com Odin e Frigga, chegavam até a casa, todos espantados com a cena dantesca que se desdobrava diante de seus olhos.
- O-o quê? - Aos poucos Loki começava a tomar conhecimento de que não estava sozinho, mas, ao se lembrar do que vira a pouco, seus olhos se arregalaram e ele tentou fugir da casa, berrando como se a sua sanidade finalmente tivesse desaparecido. - AAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!! SAIAM DA FRENTE!!!! PRECISO IMPEDIR DE ACONTECER!!!!!! - Os deuses mais próximos a ele tiveram dificuldade em conter o deus enlouquecido. - ME SOLTEM SEUS NÉSCIOS!!!! APENAS LOKI PODE SALVAR A TODOS OS DEUSES DO FIM QUE SE APROXIMA!!!! ESQUEÇAM O RAGNAROK!!! ELE NÃO É NADA SE COMPARADO AO QUE... Uuuurrrrggghhhh....
Depois de receber um golpe do Mjolnir em seu estômago, Loki caiu, sendo amparado por seu meio irmão que, para surpresa de muitos dos presentes, parecia extremamente infeliz com o feito.
- Ah, pobre irmão... Finalmente vossa sanidade, sempre tão frágil, sucumbiu aos poderes negros a que prestaste vossos serviços... - Ele se voltou para seu pai, pedindo pelo agora desmaiado deus da trapaça. - Nobre Odin, peço-te que tenhas piedade de vosso filho enlouquecido...
- Os atos de vosso irmão foram hediondos demais... Já não é possível que apenas castigos ou, como quando eram crianças, palmadas resolvam vossa situação...
- Mas pai...
- Meu marido... - Lady Frigga também partiu em defesa do filho adotivo. - Loki é vosso filho e...
- Calai-vos os dois... Thor tu és o orgulho de vosso pai e lady Frigga, és o motivo de meu coração bater todos os dias, mas olhais ao vosso redor... Olhai para os rostinhos dos pequenos infantes que tiveram tão cruel destino.. Pensai nos pais que sofrerão dores impensáveis ao saber o que aconteceu com vossos filhos e me dizei... Devo eu, o pai todo poderoso ter piedade?
Diante de tal argumento o silêncio era a única resposta.
- De hoje em diante decreto que Loki Odi... Que Loki Laufeyson está exilado da bela Asgard, condenado a vagar por Midgard sem jamais ser aceito pelos seus moradores, vivendo em desgraça até que o Ragnarok aconteça e dê um fim à sua existência miserável.
E assim Loki, o deus da trapaça foi exilado da cidade dourada de Asgard, sendo empurrado pelo próprio Heimdall através de Bifrost, caindo na Terra, seguindo os desígnios de seu pai.
Mal sabiam os deuses que tudo ocorrera como ele planejara.
E agora, nos dias de hoje, é chegada a hora de Loki colher os frutos de seus planos.”
XXX
Na noite daquele mesmo dia, um casal de namorados acaba de sair de um modesto restaurante.
- <E aí? Menos nervosa?>
- <Donald Blake... Você acha que sou tão fácil assim? Apenas um jantar e já irei te perdoar? Vai ter que caprichar mais...>
- <Hum... Tenho umas idéias...> - De repente a temperatura cai de modo violento. - <Nossa... Que frio... Olha! Dá até prá fazer “fumacinha”... De onde veio isso?>
- <Não sei... bbbbrrrrrr... É melhor voltarmos aos dormitórios e... Cuidado!!!>
Graças ao aviso da garota, o casal consegue se jogar ao chão, evitando assim o impacto de algo tão grande que eles mal conseguiam imaginar o que poderia ser. Uma rocha? Talvez parte de algum prédio desabando?
A verdade, no entanto era mais aterradora.
Diante dos olhares atônitos do casal um imenso gigante coloca sobre o ombro o que lembra uma enorme clava, que parece feita de rocha bruta. A pele do monstro é azulada e aparentemente coberta de gelo, assim como sua arma e as parcas roupas que usa, que mal escondem seu corpo. O ar ao redor dele parece formar uma névoa de frio intenso.
O gigante olha em volta e, quando finalmente parece perceber as pessoas que quase matou, ele abre sua boca num esgar horrível que vagamente lembra um sorriso. O que ele fala a seguir tira Jane e Donald do estado de torpor em que encontram.
- Comida...
- <Corre!!!!>
E eles correm.
O que é inútil uma vez que, a cada passada do gigante, eles precisam se desviar dos pés do mesmo, para não serem esmagados, ao mesmo tempo em que tentam fugir da clava que o monstro manuseia, procurando atingi-los.
Ao dobrar uma esquina eles são quase atingidos por um carro e então os dois vêem, ainda mais aterrorizados, que não existe apenas um gigante, mas vários, atacando as pessoas pelas ruas de Berlim.
- <Meu Deus! Por aqui Jane!!!>
- <Me proteja...> - Enquanto se deixa levar pelo namorado, a garota segura com mais força seu pingente em forma de martelo. - <Me proteja... Por favor deus de todos os trovões.. E-eu... DON!!!!!!!!!!>
Sem aviso nenhum um dos gigantes se coloca diante do casal e consegue atingir Donald com um tapa, como se o humano fosse menos que uma mosca. Jane, mais do que rápido, se lança sobre o namorado caído, procurando protegê-lo, enquanto continua suas orações desesperadas.
- <Nos salve, senhor dos trovões... Nos salve... Ó poderoso...> THOR!!!!!!!!!
Nuvens de tempestade começam a se formar sobre Berlim, o que faz o Gigante conter seu próximo movimento e olha para cima, dando tempo para que Jane arraste seu namorada para um local mais seguro, sem deixar de orar para o seu deus. As luzes dos postes da rua empalidecem diante dos brilhos dos raios e relâmpagos que riscam o céu noturno, ventos fortíssimos ajudam alguns transeuntes a escaparem dos monstros que os perseguem.
Sem nenhum aviso o Gigante do Gelo é fulminado por um raio e cai pesadamente no chão já sem vida.
Jane Foster não larga seu pingente e olha demoradamente para o monstro caído, uma fumaça preta começa a subir do seu ferimento, enquanto uma leve garoa começa a cair do céu, fazendo com que ela finalmente erga o rosto e veja seu salvador.
- Chamaste pelo meu nome mortal... E Thor atendeu a vosso apelo.
Continua
[1] Traduzido do Old Norse, a língua dos Vikings.
[2] Traduzido do Alemão.
