
As peças do tabuleiro.
Por João Norberto da Silva.
- Pode me chamar de Resgate.
Aquela frase ainda soava meio ridícula aos ouvidos do rapaz, mas, mesmo assim, ele aprendera o efeito que as mesmas provocavam nos tipos que ele já havia enfrentado, como o covarde que estava na sua frente.
Enquanto Rodolfo se arrastava pelo chão imundo, Resgate ia se aproximando e erguendo o punho brilhante, preparando o soco que colocaria um fim naquilo. Praticamente funcionando no automático, ele acertou o sequestrador e, como acontecia em casos “simples” como aquele, sua mente voltava no tempo, lembrando de quando e como sua vida havia se tornado aquela loucura.
XXX
O passado. Ano 2008.
Júlio jamais vai se esquecer da alegria que sentiu quando chegou em sua casa naquela noite quente de Março.
Era a primeira vez que ele ia passar uma noite sem ninguém com ele. Desde que sofrera o acidente, sua mãe, ou uma de suas irmãs, sempre ficava lá, ajudando-o a se ajustar à nova realidade.
Assim que trancou a porta atrás de si, ele encostou-se na mesma, respirando profundamente para reunir forças e coragem. Uma vez que se acostumara com mais de uma pessoa na casa, o sentimento de solidão aumentava e muito.
Andando alguns passos ele se movimentou para soltar os arreios que prendiam o braço mecânico, que seu pai conseguiu cobrando um ou outro favor de seus colegas médicos e segurou o membro artificial na mão esquerda, respirando fundo enquanto mantinha o olhar fixo no mesmo.
Júlio nunca iria esquecer como seu pai reagiu ao vê-lo sem um braço, quando finalmente puderam visitá-lo no leito do hospital e nem poderia agradecer por todo o esforço do senhor Reinaldo para conseguir a melhor prótese do mercado.
O rapaz pousou o membro artificial com todo o cuidado sobre o sofá da sala, ainda sentindo o silêncio, ao qual se acostumara por anos, apenas para perceber realmente o quanto fazia falta mais gente por sua casinha, que ele conseguira num financiamento com a ajuda de seus pais e que finalmente havia quitado a alguns meses atrás, motivo pelo qual fez a fatídica viagem até a praia, em comemoração.
Ele seguiu até a cozinha, pretendendo fazer um lanchinho, parando apenas para dar de comida para Peixe, o peixinho Beta que ele mantinha em um pequeno aquário no canto direito de sua sala.
“Algum dia preciso arranjar um nome de verdade para esse bicho” Júlio se permitia alguns pensamentos banais, enquanto o pequenino peixe se dirigia para as migalhas de comida e então, após fechar o frasco de ração, ele começou a se encaminhar para a cozinha, para um lanche antes de se deitar, o que ele faria mais cedo do que de costume, afinal o dia seguinte seria Segunda-Feira e ele finalmente voltaria ao trabalho.
O bom humor terminou no exato momento que seu primeiro pé tocou o chão da cozinha e, após sentir algo, que poderia ser descrito como uma onda elétrica passando por todo o seu corpo, Júlio viu alguém que ele passara a acreditar que não existia, que fora apenas um sonho, efeito dos remédios do hospital.
Ele se pegou totalmente estarrecido, olhando para a janela da cozinha e vendo através da mesma, o homem que se apresentou a ele no hospital como sendo um anjo.
Shamael o olhava fixamente, como se esperasse um convite para entrar, o que fez Júlio tentar pensar rapidamente no que dizer.
- Quem é você, afinal? - Mesmo se lembrando do nome do estranho, Júlio não conseguiu bolar nenhum jeito mais criativo para ganhar tempo, até pensar em como ligar para a polícia. - Eu...
- Você até poderia chamar a polícia, mas daí eu ficaria ainda mais desapontado com você... Desapontado e nervoso.
O tom de ameaça na voz do outro mal pôde ser assimilado, mas foi o suficiente para que Júlio estacasse e ficasse petrificado como uma estátua e então, sem outra escolha, ele apenas tentou novamente focalizar e memorizar o rosto do invasor, numa vã tentativa de se sentir mais seguro.
Shamael tinha as mesmas feições orientais, que transmitia calma, sem esconder, no entanto, a aura de poder que vinha dele. As roupas ainda lembravam as dos típicos lutadores dos filmes chineses.
- Bem... Não vai se sentar? – Agora o anjo estava sentado na mesa da cozinha e, como se fosse o dono da casa estendia uma mão na direção de uma das cadeiras. Júlio não conseguiu ver quando ele havia entrado. – Sinta-se em casa... Precisamos ter uma longa conversa...
XXX
O presente.
- Uurrggghhh....
O gemido de Rodolfo, mostrando que ele estava se recuperando do soco que acabara de receber, trouxe Resgate de volta à realidade, percebendo ter ficado alguns instantes parado, perdido como estava nas próprias memórias.
Infelizmente, como o sequestrador não havia desmaiado de vez com o primeiro golpe, o recém-chegado não via mais nenhuma alternativa e imobilizou Rodolfo, deixando-o de frente para as duas garotas que ele havia prendido e torturado nos últimos dias.
- Peça perdão às duas moças seu filha da...
- Nem ferrando... - Ainda zonzo Rodolfo tentou uma cusparada direcionada à garota que o havia rejeitado, errando por pouco, graças ao tranco que Resgate havia lhe dado. - Quero que essas sapatas nojentas morram e... Aaaarrrggghhh!!!
Uma torção no braço direito e ele interrompeu a onda de ofensas que iria lançar, começando a choramingar pedidos de clemência.
- A-afinal... Q-quem é você?! Olha... Meus pais têm grana e...
- Putz... Será que eu, um dia, fui um chorão como você? Não é a toa que o Sam me xingava pacas... Depois de tudo o que você fez a essas duas moças, acha mesmo que pode escapar assim? Pela última vez, pede desc...
- Vão se fo... – A frase do sequestrador deu lugar a um urro de dor, quando ele sentiu seu braço sendo quebrado. – AAAAAAAAAAAAAAGGGHHHH!!!!!
Sem ter outra saída, Resgate se concentrou, deixando seu braço energético mais brilhante e, em seguida, enterrou a mão na nuca de Rodolfo, acionando o poder que Shamael batizou de Distorção da Alma.
Quando uma pessoa é atingida por esse poder, ela sente o que pode ser descrito como uma terrível dor direcionada à alma, fazendo com que todas as dores que a pessoa sofreu na sua vida voltassem de uma vez, mescladas às causadas em suas vítimas.
O resultado era sempre devastador.
Rodolfo caiu no chão empoeirado, no rosto uma expressão petrificada de dor que chamaria a atenção dos policiais ao chegarem para prendê-lo. Uma expressão que ele manteria por vários dias.
- Muito bem moças... – Resgate desamarrava as duas cativas, não se surpreendendo quando as mesmas se abraçaram e procuravam manter uma distância segura dele. - Certo... Eu estou de saída, mas antes vou ligar para a polícia... Vocês podem esperar aqui ou lá em cima e...
Ele parou de falar quando Bruna e Angélica, ambas refeitas do susto e, finalmente se percebendo livres, venceram o medo do estranho salvador e o abraçaram, chorando e agradecendo muito.
“Nossa, mesmo machucadas elas continuam muito gos...” Resgate precisou balançar a cabeça para afastar o pensamento, ajudando assim as garotas a subirem as escadas e se sentarem, pela primeira vez em dias, em um confortável e limpo sofá.
- Alô? É da Polícia? Quero denunciar um sequestrador... Sim... Foi o que levou as garotas que a televisão está falando... Eu o prendi e elas estão sãs e salvas na sala dele... Não... Não vou dizer meu nome... Mas deixarei o telefone ligado para vocês rastrearem a ligação... Lembre-se de pedir pros policiais entrarem devagar, pois só elas estão na sala... O bandido está caído no porão. Adeus.
Horas mais tarde Resgate estava escondido entre alguns curiosos, obviamente com seus poderes desativados, acompanhando o trabalho dos policiais, que colocavam as duas garotas em ambulâncias e faziam um aparvalhado Rodolfo entrar numa das viaturas. Todos os presentes estranhando o rosto do mesmo e a cooperação com que ele se deixava levar.
- Nunca vi um bandido aceitando ir tão calmo prá delegacia inspetor...
- Pode me chamar de Pereira... Hã... E você é?
- Danilo... Eu me formei a poucas semanas...
- Ah, sim... Então Danilo, pode me chamar apenas de Pereira.
- Certo e... Hã... O que o senhor acha dos relatos? O pessoal tá comentando o que elas falaram... Sobre o cara de olhos e braços brilhantes...
- As coitadinhas estão em estado de choque Danilo... Depois que se recuperarem provavelmente as duas vão acabar mudando essa versão... O importante foi que pegamos o desgraçado que as sequestrou...
- Pois é... Loucura não? O próprio colega de uma delas... Ouvi falar que ele era um dos que mais cobrava ação da polícia...
- Truque para disfarçar... Infelizmente o ser humano é cheio dessas... Se houver mesmo um “anjo da guarda” por aí, eu fico feliz de ele estar nos ajudando...
- É verdade Inspe... Hã... Pereira...
Com um sorriso nos lábios Júlio começava a caminhada que o levaria até sua casa, quando viu numa esquina próxima uma pessoal sentada numa moto Falcon num tom de vermelho escuro.
Ele se aproximou, não podendo deixar de notar as provocantes curvas femininas que as roupas agarradas deixavam aparecer, sabendo quem era a garrota sem mesmo que ela tirasse o capacete.
- Gravou esse também? - A outra apenas se limitou a um simples aceno positivo de cabeça, e Júlio notou um leve brilho dourado por detrás do visor espelhado do capacete dela. - Sei que o Sam não me passou esse serviço e imagino o motivo, mas toda boa ação precisa ser registrada não é? - Mais silêncio e agora ela apenas ligava sua moto, dando a entender que aquele papo estava encerrado, se afastando lentamente. - Valeu! Foi um prazer falar com você também gata! - Ele gritou as próximas palavras, mesmo sabendo que dificilmente ela ouviria. – Ah! E valeu por oferecer carona! Eu prefiro ir a pé para casa! É pertinho!
Quase uma hora de caminhada e Júlio finalmente avistava sua casa.
Assim que fechou a porta atrás de si ele começou o ritual de todas as noites, quando ele se envolvia em alguma situação como a daquele dia.
Ele deu de comer para o Peixe, em seguida mexeu em sua prótese, se certificando que ninguém a tirara do lugar onde ele deixou, e então, após respirar profundamente, se encaminhou bem devagar até a cozinha. Só voltou a respirar mais aliviado quando percebeu que o cômodo estava vazio. Desde a noite em que Shamael aparecera pela primeira vez em sua casa ele não conseguia deixar de fazer seu “ritual da boa chegada”.
Estando mais relaxado, ele deu uma olhada no relógio da cozinha e, percebendo que ainda era cedo uma vez que passava pouco da meia-noite, colocou uma lasanha pronta para esquentar no microondas, foi até seu quarto e ligou o computador.
Ainda era incômodo digitar com uma mão apenas e, como ele não queria arriscar que a mão de energia estragasse algo, voltou até a sala e vestiu sua prótese, entrando em seguida em um programa de conversação on-line. Logo uma mensagem brilhou na tela:
“Ei cara! Já apareceu nos jornais da noite sobre o seu salvamento de hj.”
“Boa noite para vc também, Visionário...”
“Opa... Mal ae... Que bom que minha dica deu certo.”
“Valeu de montão... Não acredito que as famílias das moças tavam tentando abafar o caso... Se eu soubesse antes...”
“Deixa disso... O importante é que você seguiu minha dica e salvou as duas.”
“Isso é verdade... Tem mais dicas por ae?”
“Estou enviando para o e-mail que vc me passou... Acredita se eu te disser que tem até uns rumores sobre Lobisomens no Campus da USP?”
“Nossa... Ae tbm já é demais né?”
“Eu só reúno material cara... O que fazer depois é com vc... Ah! Outra coisa que me chamou a atenção é um lance de lutas ilegais... De repente essa é mais a sua cara...”
“Certo, certo... Opa! O Microondas tá avisando que a comida ficou pronta... Vou nessa cara... Abraços e até mais.”
Júlio desligou o computador, ele sabia que, se deixasse ligado, dormir seria a última coisa que ele acabaria por fazer, uma vez que ainda estava sob o efeito da adrenalina de ter entrado em ação. Desse modo ele colocou seu jantar no prato, sentou no sofá da sala e ligou a televisão, percebendo que suas ações, conforme disse o Visionário, eram o destaque dos jornais.
- As duas moças salvas estão sendo medicadas nesse momento e estamos aguardando um comunicado oficial da polícia, mas alguns rumores dão conta de que elas foram salvas pela “lenda urbana” sobre a qual diversas pessoas têm falado e... *CLIC*
Ele mudou o canal para onde passava um estranho desenho animado onde duas crianças e uma versão da morte enfrentavam situações bizarras. “Lenda urbana... Humpf...” afastando os pensamentos sobre como suas ações começavam a chamar atenção indevida, ele zapeou pelos canais, terminando por deixar em uma reprise de um filme antigo.
Logo mais ele iria finalmente se acalmar e dormir, sabendo que teria, no dia seguinte, bastante serviço no correio.
XXX
Longe dali a noite ainda estava agitada numa das boates mais caras e exclusivas de São Paulo.
O Clube Equilibrium, como sempre, estava lotado, para o deleite de seu dono, o homem que chama a si mesmo apenas de Caetano.
O Clube fora projetado para ser um dos mais modernos do Brasil com uma pista enorme, onde muitas pessoas podiam dançar à vontade, sem, no entanto, se apertar uma contra a outra, a não ser, é claro, por vontade própria, mas mesmo assim algumas reentrâncias na pista principal davam lugar para alguns quartos luxuosos, com preços variados, para que os clientes que se envolvessem não precisassem ir para outro lugar, concentrando ainda mais os lucros de Caetano.
Em outros lugares exclusivos, para os clientes mais ricos, era possível se realizar todo e qualquer tipo de fantasia, com garantia total de privacidade e anonimato, tudo isso pelo preço certo, é claro.
Outros locais no clube eram ainda mais misteriosos e privativos, visando uma clientela muito mais exclusiva e especial.
Naquela noite um desses clientes estava na sala particular de Caetano.
O visitante não podia deixar de notar que, mais do que uma sala de escritório, o local era parecido demais com um luxuoso apartamento, dando a entender que o dono do clube raramente saía de lá, o que era uma verdade.
Espalhadas pelo local, várias réplicas de quadros famosos, que Caetano insistia em dizer que eram originais e que as falsificações estavam no lugar dos verdadeiros “Para conseguir tais mimos é só saber com quem negociar” era uma das frases que o empresário mais gostava de usar.
As paredes eram pintadas de preto, mas, se um observador mais atento fixasse o olhar, perceberia algo como sombras, algumas humanóides, outras nem tanto, se movendo por todo o local. Uma porta, na parede esquerda, deveria levar para o quarto de Caetano. Na parede direita, o visitante não sabia ainda e havia uma terceira porta que parecia não ter uma função clara. O local onde se encontrava era, no mínimo, desconcertante.
Essa porta estava na imensa vidraça panorâmica, que permitia ao dono do local ver tudo o que acontecia metros abaixo. Caso alguém passasse por ela cairia na pista de dança. Uma queda mortal.
“Será?” Era a resposta enigmática de Caetano, quando questionado sobre a estranha porta.
O visitante continuava a olhar ao redor, procurando evitar propositalmente a cena que se desenrolava por detrás da enorme escrivaninha de Caetano, onde o mesmo se encontrava, como ele mesmo dizia, fazendo a “refeição da noite”.
Uma garota ruiva estava nua e amarrada com tiras de couro que a mantinham presa contra a vidraça, enquanto o empresário abusava de seu corpo de todas as formas possíveis e algumas impensáveis. As marcas da violência e da tortura se evidenciavam em sua pele tão clara.
- Pára!!! Não faz issooooo!!!! - Como o escritório era à prova de som, não foi necessário amordaçar a moça, o que aumentava o prazer do empresário, que continuava sua perversão. - Não me falaram nada disso!!! Não!!!! Páááááraaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!
O visitante fechou os olhos quando o característico som de ossos se partindo preencheu o escritório, enquanto Caetano quebrava o pescoço da pobre moça, soltando-a em seguida das tiras de couro. O corpo da coitada caiu no chão como uma marionete cujas cordas haviam acabado de ser cortadas.
Rapidamente o empresário se abaixou e agarrou o rosto da moça com violenta rapidez, levou a mesma até perto de seu rosto para, em seguida, sugar com voracidade algo que parecia estar saindo da boca dela.
- Aaaahhh.... - Agora Caetano se erguia, largando o corpo e ajeitando os cabelos, com uma expressão de êxtase no rosto. - Isso... Puxa... O orgasmo é ainda mais forte quando elas morrem no momento exato... Mas deixemos isso para lá... – Ele parecia finalmente notar seu visitante. – O que eu posso fazer pelo senhor... Hã... Senhor...
- E-eu... - Ainda ressabiado pelo que acabara de acontecer, o outro tentava, sem sucesso, esconder o nervosismo. - Meu nome é Carvalho... Eu... Eu sou um empresário como o senhor e...
- Não.
- Como?
- Você nunca será como eu meu caro... Eu imaginei que essa minha pequena demonstração deixaria isso bem claro, mas meu tempo é curto... Vamos direto aos negócios... O que posso fazer pelo senhor?
- Hã... Bem... Não sei se o senhor sabe, mas existe um circuito alternativo de... Hã... De lutas não oficiais e...
- Sim, as Rinhas Humanas... Eu conheço... Fui um dos que idealizaram o projeto... Mas não respondeu a minha pergunta... E eu estou começando a ficar impaciente...
Nesse momento Caetano pegou o pé da garota e começou a arrastá-la pelo escritório, até parar diante da misteriosa porta da vidraça, Carvalho estava tão impressionado pelo modo como o corpo se encontrava, parecendo mumificado, que nem percebeu o que aparecia enquanto o outro finalmente abria a porta e só despertou quando o corpo foi jogado através da mesma, que foi fechada logo em seguida.
- Meu Deus! O senhor é louco? - Dizendo isso, Carvalho se precipitou para a vidraça, esperando ver o alvoroço que deveria ter se criado com a queda daquele corpo na pista de dança, mas, no entanto, não foi o que ele viu, uma vez que tudo permanecia normal. - Nada... Mas o que está acontecendo?
- O que está acontecendo, senhor Carvalho... - Depois de sair pela porta da parede direita, que Carvalho identificou como um luxuoso banheiro, Caetano se aproximava incomodamente de seu visitante, ficando com o rosto a poucos centímetros do rosto do outro. - É que o senhor está abusando de minha boa vontade e de minha hospitalidade, portanto, pela última vez, vá direto ao assunto.
- Hã... Sim, sim... Eu perdi muito dinheiro na última rinha e preciso recuperá-lo, mas tem uma garota lá que é o próprio capeta lutando e...
- E você quer que eu te arranje um campeão certo?
- É... Seria isso mesmo...
- Pois muito bem... - Caetano se recostava em sua confortável poltrona de couro, voltando sua atenção para a pista de dança e, com um movimento de sua mão, um de seus empregados, um homem absurdamente grande, que parecia incomodado e desajeitado em um caríssimo terno, surgiu através da porta pela qual Carvalho entrara. - Me traga aquela.
- Sim senhor. - Mais uma vez Carvalho era surpreendido, sem compreender como o empregado entendera a ordem de seu chefe.
- Bons empregados devem entender de imediato não acha senhor Carvalho? - O outro teve um sobressalto e se pegou perguntando se Caetano conseguia ler a sua mente. - Não é preciso entrar na sua cabeça para entendê-lo, senhor Carvalho... Sua fisionomia o entrega... Acredito que o senhor seja terrível em jogos de cartas...
- E-eu...
- Amanhã à noite seu novo lutador estará à sua espera no local da nova Rinha... Não se preocupe em procurá-lo, ele o encontrará... E será um oponente à altura da sua garota durona... - Sem saber como terminar o negócio, Carvalho continuava parado na cadeira diante da escrivaninha. - Com ele ganhando ou não, um cobrador irá até a sua casa na noite seguinte... Esteja lá, não tente me enganar nem fugir e poderemos ter novos negócios... Agora... Saia.
A ordem foi dada com voz de veludo, mas foi o suficiente para que o outro se erguesse o mais rápido que pôde e saísse do escritório de modo cômico, tropeçando e quase caindo algumas vezes.
- Vai me mandar dessa vez? - Assim que ficou sozinho Caetano pôde ouvir uma voz que parecia vir das sombras da parede. - Estou querendo me divertir um pouco...
- Não dessa vez... Acho que tenho o lutador perfeito para a ocasião... Agora, procure uma garota e se divirta.
Quando finalmente se sentiu de fato sozinho, Caetano abriu uma gaveta e de lá retirou o que parecia um cristal, cujo interior brilhava com uma luz azulada. Ao aproximar a jóia de seu rosto ele pôde perceber que a luz formava um perfeito rosto humano que parecia gritar por ajuda.
Um rosto humano pertencente a uma garotinha.
- Em breve, minha cara... Muito em breve...
XXX
Alheio a todos esses acontecimentos, Júlio jazia em seu sofá, onde sentara para ver o filme, o prato vazio e abandonado numa mesinha próxima e a televisão já apresentando a característica imagem de quando o canal encerrava as programações do dia.
O rapaz se remexia e, como quase sempre acontecia, seus sonhos eram recheados pelas lembranças do passado, de tudo o que mudara em sua vida.
De como ele se tornou o Resgate.


