Laufeyson - O Início
Por Alex Nery.
O homem de sobretudo marrom permanecia quieto sob a chuva. As gotas grandes e abundantes começavam a encharcar sua roupa, mas mesmo assim ele não procurava abrigo. Protegia-se da água meramente colocando as mãos dentro dos bolsos e levantando a gola do casaco. A chuva caía no chão de terra, fazendo com que grãos de areia saltassem e colassem em seus sapatos, deixando-os sujos, mas mesmo assim ele não parecia se importar.
Ninguém saberia dizer a quanto tempo estava parado ali, encarando o portão aberto do cemitério de Heaven West. Alguns poderiam dizer que estava ali havia horas, outros não o teriam percebido até então. Porém, todos os que o viam não podiam deixar de sentir uma estranha familiaridade com aquela figura alta e magra. Uma familiaridade periférica, como um deja vu. Nada que incomodasse realmente, apenas aquele tipo de pressentimento que as vezes nos ocorre e que longo em seguida é completamente esquecido.
Mary, a garçonete do bar situado em frente ao cemitério, não desgrudava os olhos do estranho. Enquanto limpava o balcão com um pano sujo, mantinha seus olhos sobre a figura encapotada na chuva. Era quase hipnótico olhar aquela cena. As outras pessoas no bar conversavam distraidamente, mas todos, em maior ou em menor grau, estavam curiosos sobre o estranho na chuva. Isaac, o velho proprietário do bar, aproxima-se e dá um cutucão em Mary.
- Mary! Atenda aos clientes – diz Isaac.
- Ai! Eu estou atendendo, seu Isaac… – protesta a garçonete.
Isaac acompanha os olhos da garçonete e vê o homem de sobretudo.
- Quem é aquele? – pergunta o velho.
- Algum maluco, com certeza. Só sendo doido pra ficar parado debaixo dessa água toda… – resmunga Mary desviando o olhar e começando a arrumar alguns copos.
O dono do bar passa os dedos pelo bigode farto, num gesto conhecido pelos freqüentadores. Ele fazia isso sempre que ficava curioso. Era praticamente um cacoete.
- É alguém da cidade? Não reconheço… – diz Isaac estreitando os olhos, numa vã tentativa de enxergar melhor.
- Não. Pelo menos ninguém conhece… – diz Mary com displicência levantando uma bandeja com cinco canecas de chopp cheias.
- Pode ser algum maluco mesmo… – Isaac volta-se novamente para o homem de sobretudo.
Mas ele não estava mais lá.
Dentro do cemitério, as passarelas estavam tomadas pelas folhas secas que caíam durante a pesada chuva. Pelas canaletas, pequenos rios escorriam, levando folhas e gravetos até a boca de esgoto mais próxima. Em breve estariam entupidas. O estranho caminhava calmamente, com destino definido. O som da chuva abafava qualquer ruído, então nem mesmo seus passos eram audíveis.
O estranho dobrou algumas vezes pelo caminho até chegar em determinada área do cemitério. Esta ala era bem mais mal-cuidada do que o restante. As lápides tinham uma aparência suja e abandonada. O homem de sobretudo parou e olhou em volta, como se certificasse de estar só naquele local. Depois, decidido, agachou-se em frente a uma lápide pequena.
Estendeu a mão e agarrou as ervas que encobriam a lápide. Arrancou-as sem dificuldade, revelando o nome inscrito no mármore.
GERTRUDES GRIMM
Amada mãe
1950 – 1997
O homem balança a cabeça e deixa escapar um sorriso, como se estivesse se divertindo. Mas logo o sorriso é substituído por uma expressão determinada. Seus olhos possuem um brilho antigo e endurecido e, com uma expressão grave, ele começa a rabiscar com o dedo sobre a grama do túmulo, formando estranhos sinais. Seus gestos são rápidos e firmes e onde sua mão magra toca, a grama desaparece, dando lugar a um sulco. Terminado o desenho, ele faz um gesto amplo com a mão sobre o conjunto. Num instante, as linhas brilham, variando de um amarelo intenso a um vermelho profundo. Por fim ele sussurra gentilmente:
- Grimgerde…
Um raio ilumina os céus, como um alerta, seguido por um estrondoso trovão. O homem levanta a cabeça e deixa a água da chuva cair sobre seu rosto. Piscando de um olho, ele observa o céu nebuloso.
- Agora não.
Ele volta-se para os símbolos reluzentes e sussurra novamente, num tom carinhoso:
- Grimgerde. Sou eu.
Com o anoitecer se aproximando, a já precária iluminação vai cedendo lugar às sombras noturnas. Mesmo assim, o homem não se levanta e desta vez fala com firmeza na voz:
- Grimgerde, eu vim de longe e mereço a sua atenção. Eu EXIJO que me responda.
Um uivo aterrador corta a paisagem sinistra, vindo de todo lugar e de lugar nenhum. O homem permanece agachado, com os olhos fixos nas runas desenhadas no chão.
Súbito, as runas se revolvem, e do seio da terra, uma mão pálida emerge em busca de algo. O homem agarra a mão pelo pulso e se ergue, trazendo consigo o corpo da mulher sepultada. O corpo, cadavérico e pálido, revestido de uma aura amarelada, oferece pouca resistência e o homem consegue ergue-lo sem esforço algum.
O homem de sobretudo ergue o braço acima de sua cabeça, colocando a cabeça do cadáver no mesmo nível que a sua. Os olhos do cadáver não passam de uma imagem borrada sobreposta às órbitas vazias e negras do esqueleto, mesmo assim encaram o homem.
- C-como ousa… – geme a aparição.
- Como eu ouso? Esquece quem eu sou? Eu ouso tudo, minha cara Grimgerde.
- M-me deixe… descansar… – pede a alma aprisionada.
- Com certeza, mas antes temos negócios a tratar.
O cadáver balança num esforço inútil para se livrar do homem.
- Tsc, tsc… Seu estado é deplorável, Grimgerde…
- M-malditoooo…
- Meça suas palavras, saco de vermes. Vamos ao que me interessa: onde está?
Grimgerde revira os olhos vazios, como se buscasse evitar os olhos negros e penetrantes do homem.
- ONDE ESTÁ? – grita o homem, pela primeira vez demonstrando sua impaciência.
O silêncio do espírito capturado irrita-o mais ainda.
- Pelas runas eu te invoquei, Grimgerde. Você não pode se recusar a me responder. Sabe disso…
- E-ela se foi… – responde o espírito, sem alternativa.
- Se foi para onde? – insiste o homem.
- Para… São Francisco… já fazem anos…
- Você não fez um bom trabalho, não é mesmo? Não cuidou dela como deveria.
- E-eu…
- Ela foi colocada sob seus cuidados, e mesmo assim, você a deixou ir… Deve ser por isso que Odin a deixou desse jeito. Grimgerde, você é uma inútil.
- L-liberte-meeee…
- Claro que vou liberta-la. Mas ficar sob meu domínio seria bem melhor do que apodrecer numa carcaça humana. Tsc… Já que você aceitou esse encargo, fique com ele…
Num gesto rápido, o homem arremessa o esqueleto de volta à sepultura, fazendo-o chocar-se contra o solo. O corpo bate com violência, sendo abandonado pela aura amarelada. Por fim, resta apenas um cadáver decomposto sobre o solo.
O homem limpa as mãos no sobretudo e olha para o céu. A chuva cessara quase completamente.
- Bastardos.
Calmamente, ele começa a caminhar de volta à saída do cemitério e sorri.
- São Francisco não é tão longe…
Enquanto o homem alto caminha, sua memória volta no tempo até uma época menos complexa, até um castelo distante…
Há muito, muito tempo atrás…
Ele caminha imponente por seus corredores, seu queixo permanece erguido, ressaltando a arrogância de sua figura. Os serviçais do castelo baixam a cabeça à sua passagem, numa saudação muda, misto de respeito e temor devido à sua posição nobre.
Loki Laufeyson.
Príncipe de Asgard.
Notoriamente conhecido pelo desprezo que nutre por seus semelhantes.
Com passadas largas, ele logo chega à câmara real. Sua família adotiva o aguarda: Odin, o pai supremo e Frigga, amada esposa de Odin. Em volta destes, os guerreiros da guarda pessoal de Odin, portando suas imponentes lanças e escudos reluzentes, mantêm-se imóveis como estátuas.
Laufeyson aproxima-se do casal real e curva-se, numa reverência.
- Milorde, eu vos saúdo.
- Loki. Por que demorastes a atender meu chamado? – Odin parecia impaciente, mas a impaciência era uma característica nata do deus supremo.
- Perdão, milorde, eu…
- Ele demora a atender vosso chamado por que estava conspirando contra vós, meu senhor! – brada alguém que entra no salão abruptamente.
- Quem ousa interromper Odin? – brada o supremo.
A figura alta e musculosa, trajando uma armadura de combate, atravessa o salão e prostra-se aos pés de Odin, suplicando:
- Heimdall clama por seu perdão, meu senhor.
- Heimdall, o que o faz proferir essa acusação tão grave? – pergunta Odin.
Heimdall levanta-se e olha furiosamente para Loki. Ele aponta severamente para o filho adotivo de Odin e diz:
- Sinto ser o portador de tão má notícia, meu senhor, porém, vossas suspeitas se confirmaram…
- “Vossas suspeitas”, milorde? Do que este ignóbil fala? – interrompe Loki, sem alterar o tom de sua voz.
- Cale-se, Loki – ordena Odin – Prossiga, Heimdall.
Sem tirar os olhos de Loki, Heimdall continua seu relato:
- Conforme me foi confiado, reuni uma guarnição e segui até as montanhas geladas do norte. Lá testemunhei a presença de Loki, vosso filho adotivo, a engendrar pactos com os gigantes, com o intuito de roubar o trono do todo-poderoso.
- Isto é mentira! – grita Loki.
Odin ergue a mão direita, e Loki contém-se. Heimdall prossegue:
- Segundo nossos espiões, os filhos de Loki já se encontravam com os desonrados trolls, reunindo e fazendo acordos em nome de seu pérfido pai. Os três foram capturados e estão neste momento na masmorra real.
- O quê? Como ousa? – Loki exaspera-se e ergue os braços, como se pretendesse rasgar Heimdall com as mãos nuas.
Odin ergue-se e caminha para frente do trono. Ele dirige um olhar frio e severo a Loki.
- Quem pergunta isto, sou eu, Loki! Como ousas trair aquele que foi como um pai para ti, aquele que te acolheu quando nada tinhas?
Loki remexe-se e seu olhar é de incredulidade. Imediatamente, ele deixa-se prostrar de joelhos.
- Milorde, não é possível que creias nesse serviçal!
- Cala-te! Por acaso, achas que podes esconder algo daquele que tudo vê? – os olhos de Odin brilham como relâmpagos.
- Guardas! – Ao breve comando de Heimdall, a guarda real aproxima-se e ergue Loki pelos braços, prendendo-o. O deus não faz resistência alguma.
- Agora entendo… Esta reunião foi planejada. Uma farsa para acusar-me de um crime inexistente. Um ardil – murmura Loki.
- Será que tua boca não sabe proferir senão mentiras? – pergunta Odin.
- Será que nunca reconhecerás o meu valor? – indaga Loki.
Odin observa o deus aprisionado por alguns instantes. Neste momento, nenhum dos presentes sabe dizer qual será a reação do velho deus.
- As acusações são graves, Loki Laufeyson… – diz Odin com voz grave.
O fato de Odin chamá-lo de “Laufeyson” , lembrando sua verdadeira origem, é um claro sinal de que tudo está perdido.
- … sendo assim, eu o condeno por traição – conclui o pai dos deuses.
- NÂO! É MENTIRA! – protesta Loki.
- Cala-te. Tua voz fere a verdade – ordena Odin – Eu te sentencio à morte, Loki Laufeyson, pelo crime de alta traição. E teus filhos partilharão de teu destino.
- Não! – agora é Frigga quem interrompe – Meu senhor, Odin… Eu clamo que tenhas piedade de Loki.
Frigga nunca fora uma mãe para Loki, mas com certeza era a figura que mais se aproximava disso. Se Loki possuía alguma lembrança boa da infância, eram todas relacionadas à esposa de Odin.
Os presentes podem sentir o quanto Odin está a beira de um ataque de fúria, mas se existe alguém capaz de acalma-lo, este alguém é Frigga. Por instantes, ele pondera.
- Tu me pedes piedade para alguém que cometeu a maior das traições? – murmura Odin.
- Castiga-o, mas não o mates, eu imploro – a coragem de Frigga é admirável.
Odin murmura algo ininteligível. Por fim, declara:
- Graças ao apelo de minha amada Frigga, suspendo tua execução, Loki, traidor de Asgard.
Loki ouve impassível. Sua expressão agora é dura como rocha.
- Meu senhor, tal ato não pode passar impune! – grita Heimdall.
- E não passará, Heimdall. Loki, eu te condeno à prisão perpétua. Ficarás preso à rocha e nunca mais verás outro de teus semelhantes. Teus filhos, Jormungand. Fenrir e Hela, teus capitães nesta traição orquestrada, eu condeno ao exílio em Midgard, onde viverão como reles e temporários mortais, até virarem pó, como qualquer mortal.
- NÂO! EU EXIJO JUSTIÇA! – vocifera Loki, tentando se soltar dos graços dos guardas.
- Justiça para teus atos seria condenar-te à morte, Loki Laufeyson – murmura Heimdall.
- Cala-te, maldito serviçal mentiroso! Tencionas tomar meu lugar à mesa real? É isto? – Loki cospe em direção à Heimdall.
- Não tolerarei mais teu comportamento repulsivo, Loki. Levem-no – ordena Odin.
Os guardas prontamente arrastam o deus caído, levando-o para as masmorras mais profundas de Asgard. Lá, ele é amarrado à uma grande rocha e esquecido. Sua única companhia é uma cobra gigantesca que verte seu veneno, queimando a carne de Loki através dos séculos. Nem mesmo seus mais pavorosos gritos podem ser ouvidos por aqueles que residem no castelo. Para todos os efeitos, Loki Laufeyson está morto.
São Francisco, hoje.
A lembrança do calor causticante do veneno da cobra faz com que Laufeyson toque o próprio rosto. Tão logo conseguira escapar de sua prisão, restaurara sua aparência, recuperando seu aspecto jovial e agradável.
- Afinal, nenhuma prisão é para sempre não é, “pai”? –murmura o deus para si mesmo.
A cidade de São Francisco, com seus mais de quatro milhões de habitantes, descortina-se em frente à Laufeyson. Ele sente toda a sua vibração e sorri. A agitação humana, o caos que estes seres geram sempre o agradou. Achava-os desprezíveis, mas nem por isso deixava de aproveitar certos aspectos da humanidade.
E nesta cidade ele continuaria sua busca. Nesta cidade ele esperava encontrar o espírito de Hela, a senhora do mundo inferior, sua filha mais cruel e mais temida pelos mortais.
Odin decretara o exílio dos filhos de Laufeyson, porém, não é fácil conter forças divinas. Numa tentativa de mascarar o poder dos seres banidos, Odin transformara-os em mortais, privando-lhes de qualquer memória sobre suas essências divinas. Assim, eles assumiram vidas tipicamente mortais, vigiadas por sentinelas fiéis a Odin.
No caso de Hela, sua sentinela mortal havia morrido em um acidente. Loki considerava que esta era mais uma prova da incapacidade de Odin e de seu afastamento das questões mortais. Agora, ela perambulava pelo mundo sem consciência de seu papel nos planos de seu pai.
Mas ela lembrará. Não só ela, como Fenrir e Jormungand. Os três serão reunidos…
E Asgard tremerá.


