
Distrações.
Por João Norberto da Silva.
Primeiro ele colocou água para ferver. Logo depois picou alho e cebola, colocando-os para fritar no óleo “somente até dourar um pouco, sem queimar” as instruções de sua mãe ecoavam em sua mente.
Logo que o alho e a cebola estavam do jeito que ele aprendera, vinha a pior parte: Colocar o arroz para fritar um pouco.
- Quer ajuda?
- Opa! Valeu Soraia... Ainda não me acostumei com essa porcaria.
Júlio se referia ao braço mecânico, que fazia questão de usar o mínimo possível, até deixando-o em casa quando ia trabalhar, mas cujo uso se mostrava obrigatório, ainda mais quando tinha visitas e não podia usar seu braço de energia.
- A mãe ainda tá com ela?
- E você não conhece a dona Otacília? Tá lá mostrando as suas fotos de criança.
- Diz que ela não mostrou a da banheira...
- Quando você prendeu o pintinho? Claro! Essa é clássica!!! As duas riram um bocado e voltaram nela um monte de vezes...
- Aaarrghhh... Me bate com a panela de Arroz ainda quente... Opa... Deixa eu colocar a água...
Ele jogou a água fervida no arroz e o contato dela com o óleo quente fez subir uma cortina de vapor. Em seguida ele mexeu para que nenhum grão ficasse grudado na panela, quando sentiu todos se soltarem do metal, colocou uma colher rasa de sal, experimentou e, após ver que já estava bom, deixou no fogo para secar. Desligaria assim que as bolhas de água não pudessem mais ser vistas.
Terminada essa operação, ele retirou brevemente o braço mecânico para poder limpar o suor que escorria do que restara de seu braço, fazendo com que ele amaldiçoasse pela centésima vez ter de usar aquele “trambolho”.
Soraia o expulsou da cozinha, dizendo que ela mesma faria o resto do jantar e então o rapaz se dirigiu até a sala, onde viu seu pai olhando por uma janela, provavelmente pensando que o gramado da frente da casa precisava ser aparado. Sua mãe ainda se encontrava no sofá maior, com o álbum de fotos que ela trouxera, mas quem chamou mesmo a atenção de Júlio foi a mulher sentada ao lado de dona Otacília.
- Hahahahahaha... Ai amor... Que fotos fofas... Adorei a da banheira... Vem cá prá gente ver mais!
- Tudo bem Solange... – Ele deu um comportado selinho na boca da bela loira, que se ajuntou mais com a mãe dele, as duas já parecendo amigas de infância.- Ah, mãe... Essa não...
- Ah, filho... Mas você tá tão bonitinho... Ele adorava tirar fotos peladinho...
- Eu percebi... Ele tem essa mania até hoje...
Um instante de silêncio se fez, até que as duas mulheres começaram a rir até chegarem às lágrimas, fazendo com que um envergonhado Júlio se aproximasse do pai.
- Uma garota geniosa que você arranjou heim filho?
- Pois é pai...
- Percebi que você ainda não se acostumou com o braço... Juro que vou conseguir um melhor e...
- Não! – Agora o rapaz ficava extremamente constrangido, ainda mais sabendo que o pai se esforçara tanto para ajudá-lo. – Quer dizer... Não precisa... Eu estou me acostumando... Vai demorar um pouco ainda, mas não precisa de outro não... – Ele se aproximou e passou o braço esquerdo pelo pescoço do senhor Reinaldo. – Valeu demais paizão!!
O abraço encerrou qualquer tipo de mal estar que pudesse ter se formado e então Júlio pôde deixar a mente voltar para o dia em que Solange, que ele conhecia apenas como Arena, bateu à sua porta.
XXX
Foi a algumas semanas atrás.
Seguindo uma pista que o Visionário me deu, de um aumento significativo no número das Mães da Sé, um grupo mulheres que iam até a famosa praça com cartazes de seus filhos desaparecidos, meu informante me passou que algumas dessas crianças estavam sendo encontradas mortas, abandonadas em terrenos baldios após terem sido molestadas sexualmente.
Em alguns casos foram encontrados moradores de ruas junto aos corpos, mas todos alegavam que não se lembravam de como haviam parado ali, sendo logo acusados como loucos ou bêbados. Infelizmente a maioria das pessoas prefere a saída mais fácil.
O que chamou a atenção do Visionário, pelo menos como ele sempre diz que acontece, às vezes eu acho que ele deve ter algum tipo de poder para identificar tais casos, mas nesse ele disse que as declarações dos mendigos era iguais até nas mínimas frases.
Quando a noite chegou, sai de casa disposto a salvar a última menina que o Visionário disse ter sumido, de uma área que ele apontou como sendo onde estava acontecendo a maioria dos sequestros.
Mal dei dois passos e minha agente da condicional divina surgiu diante de mim.
Ela estava linda como sempre, com aquelas roupas apertadas de motoqueira e aquele corpo sensacional. Sempre fico alguns segundos bobo, só admirando aquele mulherão, sabendo que ela só vai dizer qual é a minha missão e me deixar comendo pó.
- Sobe aí.
Mais alguns segundos sem abrir a boca, achando que finalmente tinha ficado louco. Eu achava que ela tinha falado comigo e mais, me falado prá subir na moto!
- Não me escutou? Sobe logo aí.
- Hã... – Juro que nunca tinha ficado tão nervoso em falar com uma garota. – Tem certeza? Quer dizer... Eu...
- Não vou deixar nem mais uma criança ser molestada – Uau! Frases inteiras! – Por isso se você não subir logo eu vou sozinha dar conta desse desgraçado...
Me perguntei como alguém podia fazer uma frase daquelas soar tão sexy, mas logo a lembrança do que uma criança podia estar sofrendo naquele momento me trouxe de volta à realidade.
Subi na moto, coloquei o capacete e passei meu braço normal na cintura dela, tentando me concentrar na missão que tinha pela frente para não me empolgar demais por estar tão junto dela.
Levamos alguns minutos para chegar ao local onde eu iria investigar... Como essa garota corre com a moto...
Uma vez nos arredores da casa da última criança sequestrada eu acionei o Efeito Espiritum sobre meus olhos e, usando o que o Professor me ensinou, eu comecei a procurar pelos, como ele mesmo chamou, “rastros espirituais” da menina que tinha sumido.
Funciona mais ou menos assim: Eu foco a visão num ponto e me concentro ao máximo. Aos poucos as imagens das pessoas que passaram por ali vão surgindo e então eu me concentro um pouco mais na que eu estou procurando.
Foi assim que a menina, Marina se eu não me engano, surgiu brincando diante de sua casa, que foi onde a mãe disse ter sido a última vez que a viu, mas logo o que parecia ser uma enorme mancha negra a agarrou e começou a levá-la para longe.
Eu falei para Procyon me seguir e começamos a correr pelo bairro, deserto àquela hora, chegando logo a uma rua de terra, cheia de terrenos baldios e algumas construções abandonadas, ou seja, o lugar perfeito para o que o desgraçado pretendia.
Estávamos tão concentrados que não percebemos uma pessoa nos seguindo.
Vi a “mancha” entrando no que parecia um sobrado que não foi acabado, daqueles que ficam largados antes mesmo que ganharem uma cobertura, logo no final de uma rua. Ao lado dele somente mato.
Entramos e eu vi com o canto do olho que Procyon acionava seus poderes, que iriam gravar aquela minha missão, às vezes eu ainda me esqueço de que ela é minha “agente da condicional” e mesmo numa situação daquelas, não podia deixar de registrar minhas ações.
O local estava absurdamente escuro, descobrimos depois que era uma das habilidades daquele espírito, mas no momento a preocupação com a menina nos deixou descuidados, tentando aguçar nossos ouvidos para os menores barulhos.
Um murmúrio que parecia um choro abafado de criança chegou até nós e depois de uns instantes tentando definir de onde ele vinha, corremos até onde parecia estar vindo.
Fomos pegos de surpresa.
Primeiro foi o cheiro azedo de alguém que não toma banho a tempos que nos atingiu, mas logo uma chuva de golpes nos jogou no chão.
Cai de cara no piso ainda de cimento, sentindo algumas pedrinhas cortando minha bochecha, enquanto só podia ouvir o som de mais golpes e o gemido que Procyon havia soltado antes de silenciar.
Me ergui lentamente e acionei meu poder, tanto no braço como nos olhos e foi então que eu o vi.
Não era apenas um espírito maligno como eu havia imaginado a princípio.
Era um demônio menor.
O desgraçado estava com a camiseta da menininha nas mãos, enquanto a coitada se encolhia no chão, tentando se proteger.
Fomos pegos de surpresa, ele esticou uma das mãos e então dois punhos pareceram brotar do chão, nos acertando em cheio.
Tudo ficou escuro.
Quando consegui abrir os olhos outra vez percebi que estávamos presos numa das paredes, envolvidos numa mistura de terra e cimento, onde apenas nossos rostos ficavam à mostra.
Percebi ainda, com o canto dos olhos já que não conseguia mover minha cabeça, que Procyon parecia continuar desacordada, ainda que o brilho sobre seu olho permanecesse registrando tudo.
- Não deviam ter vindo atrapalhar minha diversão...
Olhei para onde estava vindo a voz e vi o mendigo. Ele agora tinha o corpo todo deformado, um claro sinal de que o demônio o havia infectado além de qualquer salvação, pois ele já estava se manifestando no nosso plano de existência.
Tentei me libertar, mas não conseguia de jeito nenhum e continuava indefeso enquanto ele se aproximava da criança que, graças a Deus, devia estar desmaiada. Pelo menos a coitadinha não veria o que estava prestes a sofrer.
Xinguei o desgraçado de todos os jeitos que eu sabia, tentando chamar a sua atenção, mas ele só voltou o seu rosto, com aquele sorriso diabólico, como que para me desafiar, ou mesmo jogar na minha cara como eu estava falhando.
Ele permaneceu assim por apenas alguns instantes, pois logo a sua cabeça simplesmente explodiu, espalhando miolos numa parede próxima.
O fedor fez os meus olhos arderem e lacrimejarem, mas mesmo assim eu logo vi quem tinha acabado com ele.
Era a Arena.
Ela nos libertou e quando estava pegando a Marina no colo, foi surpreendida com o corpo do mendigo, que havia se levantado e agora tentava mordê-la com os longos dentes que haviam se formado no que restara do seu pescoço.
Dessa vez eu fui mais rápido e, usando uma Distorção da Alma, eu fiz ele voltar para o inferno de onde nunca deveria ter saído.
Depois que devolvemos a garotinha para seus pais, que estavam tão felizes e agradecidos que não fizeram perguntas, nós três nos despedimos.
- Vou levar a gravação dessa noite para o Shamael... - A Procyon subia na moto, sem dar sinais de que me daria outra carona ou mesmo de que se despediria, mas me surpreendi. - Bom trabalho... Aos dois... Até mais.
Uau! Mais de uma frase numa só noite. E me dando os parabéns!
Antes que eu pensasse em algo impressionante para falar ela caiu fora, me deixando a sós com a nossa salvadora.
Ela parecia bem desconfortável e com razão... Na última vez em que nos vimos e eu tinha ajudado ela contra o tal Bazuca, depois da Procyon ter nos deixado em segurança, a Arena me deu uma baita porrada, dizendo que eu não deveria ter me metido na luta, indo embora depois sem explicar nada.
Enquanto eu esperava um pedido de desculpas, vi os olhos dela se encherem de lágrimas e então, sem aviso algum, ela me abraçou e chorou como uma criança que tinha perdido a coisa mais importante da vida.
Começamos a caminhar e ela me contou o verdadeiro motivo do soco.
Sua irmã foi sequestrada por um tal de Caetano, parece que ele era o cara por trás do Porão, a rinha de luta ilegal onde eu a encontrei pela primeira vez. Arena tinha ouvido o nome dito pelo Bazuca e era tudo o que tinha conseguido sobre o sujeito.
Ela pretendia perder para o grandalhão na esperança de ser levada até o chefão e libertar a irmã dela. Quase apanhei outra vez quando disse que o plano dela era cheio de furos.
Solange, que ela disse ser seu verdadeiro nome, me contou que estava me procurando já a alguns dias. Parece que ela tinha vencido o seu orgulho e queria pedir ajuda.
Quando chegamos no portão de minha casa, não pude deixar de ouvir o som do estômago dela roncando e quase tive de obrigá-la a entrar para que eu pudesse fazer algo para nós dois comermos.
Ela estava muito envergonhada, mas a fome falou mais alto.
Depois que ela me disse que já não tinha um lugar para ficar e que fazia algum tempo até que não tomava banho, “detalhe” que só então eu havia percebido, ofereci que ela ficasse em casa até que conseguíssemos pensar num modo de ajudar a irmã dela.
Mais uma vez ela tentou recusar, mas acabou cedendo, principalmente quando disse que ela poderia dormir na minha cama.
Desde então estou dormindo no sofá.
Inventamos uma história de que ela era uma amiga de infância e que depois de sua família ter se mudado para o interior me pediu uma força e um lugar para ficar.
Claro que minha mãe já a adotou como a norinha que tinha pedido a Deus, para cuidar do “filhote” dela.
Eu acabei deixando de lado as instruções do Professor e lhe disse meu nome verdadeiro.
Desde então estou com uma linda loira morando comigo. Finalmente algo bom no meio da loucura que minha vida se tornou.
XXX
- Filho?
- Hã? - Júlio voltava de suas memórias, com sua mãe o chamando para jantar. - Opa... Beleza! Já tava morrendo de fome!
Todos se sentaram e começaram a comer, Solange mantinha a farsa, elogiando o arroz de seu “amorzinho”, enquanto Júlio, um pouco incomodado em mentir para seus familiares, tentava parecer animado com a situação.
Nenhum dos dois imaginava o que esperava por eles.
- Como assim eu não posso entrar?
- Foram as ordens do seu Caetano... Expurgo... Ninguém entra no escritório dele até que ele avise.
- Desgraçado... Me deixando no escuro de novo... - Expurgo se voltou para os seguranças e deu um sorriso amarelo, que não escondia sua raiva. - Bem... Se ele tem seus planos eu também tenho...
Ele se aproximou de uma parede próxima e desapareceu dentro da sombra de um pedestal.
- Detesto quando ele faz isso...
- Podicrê... Dá um arrepio... E o que você acha que o chefe tá fazendo lá dentro?
- Cara... Nem faz uma pergunta dessas, se você quer viver bastante... Seja o que for que ele estiver fazendo, alguém deve se ferrar...
Os dois seguranças voltaram a ficar em silêncio, mas em seus íntimos as dúvidas continuavam.
Dentro do escritório a fonte da curiosidade dos seguranças, Caetano, se mantinha sentado na poltrona, os pés sobre sua escrivaninha, os olhos fechados e a cabeça voltada para o teto.
Ele exibia um sorriso de extrema felicidade, mostrando que estava totalmente concentrado em sua especialidade.
Torturar uma alma humana.
Muito longe dali numa casa simples localizada na zona norte de São Paulo, mais precisamente na Vila Medeiros, um jovem estava caído no chão da sala, as mãos nas têmporas e no rosto uma máscara de dor e desespero.
- Pára!!! Me deixa em paz!!!!!!!! AAAAARRRGGGHH!!!!!!!!!
O jovem começava a rolar pelo chão, os gritos sendo ignorados pelos vizinhos que já haviam se acostumado, uma vez que, de tempos em tempos, o jovem e único morador da casa cento e vinte e cinco, tinha o que eles chamavam de “ataque de pelanca”.
Era tão comum que nenhum morador chegou a ligar as épocas de gritos do jovem com certas ondas de assassinatos terríveis, nunca solucionados e cujo autor a imprensa já havia batizado com um chamativo nome.
Alheio a tudo isso o jovem sofredor parou de gritar e se ergueu lentamente, olhando ao redor como se não visse aquela casa a muito tempo.
Ele andou pelos cômodos, seus olhos parecendo registrar todo e qualquer detalhe, dos maiores aos mais simples, até chegar ao seu quarto.
O jovem empurrou o pequeno guarda-roupa, viu um tipo de entrada atrás do móvel e o começo de uma escada. Ele desceu os degraus, apoiando as mãos nas paredes, sem esticar os braços, se lembrando de que não era possível que duas pessoas descessem uma do lado da outra.
Ao chegar ao final da escada ele apertou um interruptor e várias lâmpadas fluorescentes piscaram algumas vezes antes de acenderem por completo.
Ele caminhou por vários armários e prateleiras, onde jaziam muitos jarros de metal, até se deter diante de um mostruário de vidro.
Ele ficou paralisado, respirando com dificuldade como se estivesse havendo uma verdadeira batalha dentro de si, o que não estava longe da verdade.
O jovem cerrou os olhos por alguns instantes, mas logo os abriu e um sorriso se formou, enquanto ele abria o fecho do mostruário e pegava os itens em seu interior.
Finalmente se sentia inteiro, se sentia como ele quando se sentou na frente de um moderno computador e navegava por várias páginas, todos com o mesmo tema.
Covers. Pessoas comuns que se vestiam como famosos.
Suas vítimas.
Assim que reuniu material o suficiente ele deixou de ser ele, voltou a ser apenas ele e saiu de casa.
A caçada estava para começar.
De volta ao escritório do dono do clube Equilibrium, Caetano parecia voltar de seu transe, suando muito, ele parecia prestes a desmaiar, quando apertou o botão do interfone e pediu para os seguranças trazerem três garotas, escolhidas aleatoriamente da pista de dança.
- Quero uma japonesa, uma loira e uma ruiva natural... Sim... Lá embaixo também... E rápido.
Ele se ajeitou, foi ao banheiro, lavou o rosto, ajeitou os cabelos e voltou para o escritório, com um largo sorriso nos lábios.
- Essa será uma boa distração.

