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Laufeyson #03 - Ecos do Passado

Um deus traído, injustiçado e torturado por milênios em busca de vingança... ou uma ameaça à toda a humanidade? Cuidado, pois com Loki Laufeyson nada é o que parece.

Moderador: Nery

Laufeyson #03 - Ecos do Passado

Mensagempor Nery em 09 Nov 2009, 18:51

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Ecos do Passado

Por Alex Nery



LINDISFARNE, INGLATERRA, 793 d.C.


O sol despontou sobre a amurada do monastério, tingindo de vermelho o firmamento. Os sonolentos monges postos de vigia olhavam desinteressados para a paisagem à sua frente. Na verdade não havia muito para se ver, pois a neblina ainda era espessa e cobria o horizonte, dando-lhes no máximo cem metros de visibilidade.
Aloysius bocejava, entediado. Ele tentara manter-se acordado durante toda a vigília para evitar os temidos castigos do irmão Andrew, porém não tinha sido nada fácil. De toda a dificuldade da vida em Lindisfarne, passar as noites acordado era o que mais lhe desagradava.
Subitamente todo o seu torpor desaparecera.
Por entre a neblina, que começava a se desfazer, despontavam várias cabeças monstruosas. Focinhos longos, olhos esbugalhados e dentes pontiagudos avançavam rapidamente em direção ao mosteiro.
Aloysius saltou e agarrou a corda do sino da torre, balançando-a freneticamente. O som cortou o pátio interno da construção de pedra e logo despertou os monges mais velhos, que até então dormiam a sono solto. Irmão Andrew foi o primeiro a chegar ao pátio.

- Aloysius! Quem se aproxima? – gritou o obeso monge, terror dos novatos.
- S-são os ascomanni! – respondeu Aloysius, visivelmente apavorado.
- O-os homens do norte?! Oh, Deus... – murmura Andrew incrédulo.

Perfurando a neblina com lâminas afiadas, os barcos vikings cortavam o mar se aproximando velozmente do litoral. A bordo das naus, a tripulação erguia suas lanças e bradava de maneira selvagem. Apenas seu comandante, um homem alto, branco e ruivo, dono de uma farta barba avermelhada, de pequenos e frios olhos azuis, chamado Leif, permanecia sereno.
O barco de Leif foi o primeiro a alcançar a praia, sendo rapidamente seguido pelos outros sete que formavam sua força de ataque. O viking não perdeu um segundo e saltou à praia. Seus homens desembarcaram seguindo seu líder. Nenhum deles ousou avançar à frente de Leif, mas quando este ergueu sua mão e apontou para o monastério, não houve um só que hesitasse em atacar. A horda avançou emitindo terríveis gritos de guerra, capazes de estremecer as paredes do monastério cristão.
Por trás das paredes de pedra, os monges corriam alvoroçados. Nenhum deles acreditava na pífia proteção que alguns soldados esquecidos pela coroa lhes daria.

- E se negociássemos com eles? – sugeriu o irmão Bartholomew, o segundo mais velho monge do local.
- Negociar com estes bárbaros? Tudo o que eles conhecem é violência e morte! – protestou Gabriel, o monge líder da ordem, possuidor de uma longa barba grisalha.
- Que faremos então? – indagou um dos conselheiros de Gabriel.
- Temos que fugir! Vamos sair pela passagem subterrânea enquanto eles invadem pelo portão principal – sugeriu Gabriel.

Todos concordaram imediatamente. Gabriel e seu grupo de monges mais próximos começaram a se dirigir para a entrada secreta que ficava situada na cozinha do monastério e, enquanto passavam pelos corredores, incitavam os demais membros da ordem a rezarem e lutarem contra o inimigo pagão que batia nos portões.

- Lutem, irmãos! Deus não permitirá que estes pagãos filhos do diabo invadam nosso santuário!! – gritava Gabriel incentivando os monges mais jovens à luta.

O portão principal do monastério logo cedeu aos ataques dos guerreiros vikings. Sem arqueiros, os soldados defensores do portão não puderam atacar de longe, restando-lhes apenas a alternativa de observar enquanto os inimigos botavam o portão abaixo. Tremendo, eles seguravam suas espadas e rezavam para que Deus os auxiliasse nessa luta desigual.
Alguns deles não rezaram por muito tempo mais. Os invasores derrubaram o portão com violência e entraram no pátio interno do monastério como uma maré mortal, logo ceifando a vida dos primeiros soldados. Leif em pessoa decapitou um dos guardas com um só golpe. Logo em seguida apanhou a cabeça caída e arremessou sobre os inimigos que observavam apavorados a cena. Até mesmo um bárbaro pode aprender o valor do medo numa batalha.
Aloysius observava da torre, firmemente agarrado à amurada. Suas pernas tremiam tanto que ele não conseguia correr para lugar nenhum. Dessa posição privilegiada ele pôde assistir à chacina que se desenrolava logo abaixo.
Subitamente percebeu que alguns dos guerreiros pagãos começaram a subir a escada que levava à amurada e, consequentemente, à torre. Instintivamente tocou o sino pedindo ajuda, porém, não havia ninguém capaz de ajudá-lo neste momento.
A desvantagem dos cristãos era gritante. O grupamento de soldados que guarnecia o monastério era formado por homens já fora de forma, praticamente esquecidos. Um ou outro viking chegou a se ferir em combate, mas logo massacrava seu oponente com violentos golpes de lança ou espada. As vezes os dois. Os homens do norte invadiram as instalações interiores do monastério e não perdoaram ninguém que encontraram pelo caminho. Alguns deles ainda reclamavam da inexistência de ao menos uma mulher no local, o que seria uma preciosidade se fosse encontrada, e chamavam os monges de homossexuais.
Leif e um grupo de mais seis homens avançaram pelos aposentos dos monges diretores do monastério, encontrando apenas aqueles responsáveis pela serventia. Após massacrar os servos, Leif ordenou aos seus homens:

- Encontrem o líder deles.

Com aceitação muda os guerreiros se espalharam pelo prédio em busca de Gabriel e seu séquito.
Na cozinha, situada na parte dos fundos do monastério, atrás do grande salão que servia de refeitório, os monges tentavam abrir a passagem secreta que os permitiria acessar o túnel subterrâneo de fuga.

- Mais força! Mais força! – berrava Gabriel aos dois monges conselheiros que tentavam a todo custo remover um pesado tonel de madeira que bloqueava a entrada secreta no chão da cozinha.
- Estamos tentando, irmão! – protestou um deles.
- TENTEM COM MAIS FORÇA! – exigiu Gabriel.

Porém, logo, todos eles, incluindo o irmão Gabriel, estavam tentando mover o tonel. Os cinco monges obesos e idosos rangiam os dentes e, por fim, a força extraída de seu desespero foi o suficiente para desobstruir a passagem. Arfando, abriram a tampa de madeira no chão e entraram um a um no estreito túnel de pedra, escavado anos antes justamente com o propósito de permitir uma saída silenciosa em situações extremas. Os últimos a passarem foram Bartholomew e Crispim, que puxaram a tampa de madeira de volta para o local, na esperança de que teriam alguma dianteira até que os bárbaros percebessem a entrada.
O túnel era um caminho único, então não teriam que se preocupar com a orientação. Bastava que seguissem em frente e sairiam num bosque, distante cerca de duzentos metros da amurada do monastério. Começaram a caminhar no escuro, cada um fazendo algo a que já não estavam mais acostumados: rezar.
O primeiro viking mal subira à amurada e já espetara um dos jovens monges que passara a noite ali com sua lança. Num tranco violento, ele enfiou a lança mais profundamente, enquanto o monge se afogou em seu próprio sangue. Aloysius viu seu amigo Carlos morrer dessa forma horrível, mas nem isso desfez sua paralisação. Tudo o que pôde fazer foi urinar-se de medo.
O viking olhou furiosamente para o monge. Seus olhos estavam injetados de sangue e ele estava possuído pela fúria da batalha. Rosnando, ele retirou a lança do corpo de Carlos e avançou contra Aloysius, já antecipando mais uma morte. O desesperado monge apenas cobriu seus olhos e pensou em seu Deus, aguardando o golpe mortal.
Mas o golpe não veio.
Apenas o silêncio, cortado pelo som breve de sua respiração ofegante.

- Não estás morto.

A voz masculina, porém suave, respondia à principal pergunta que inundava a mente de Aloysius. Ele receava abrir os olhos.

- Abre-os, homem.

O monge não teve dúvidas. Aquela voz devia ser do demônio, que estava ali para reclamar a sua alma, após uma vida de vícios secretos.

- Tsc, não sejas tolo.

Como nenhum som de gritos ou gemidos de almas perdidas se ouvia, Aloysius decidiu abrir os olhos.
A face raivosa do viking estava bem próximo da sua, porém, paralisado em pleno ataque. Na verdade, tudo à sua volta estava paralisado, como se o monastério e todos que nele estavam estivessem fora do tempo.
Apenas um homem moreno, de feições finas e vestido com roupas de pele, permanecia sorrindo encostado à amurada, observando Aloysius.
- S-sois o demônio? – perguntou o monge.
- Não me venhas com estas tolices novamente – respondeu o estranho.
- O que está acontecendo? Por que eu não fui atingido?
- Resolvi dar-te uma chance de sair daqui com vida.
- Como? Por que?
- Perguntas demais para alguém que implorava pela vida alguns momentos atrás...
- M-mas...
- Nada de “mas”. A questão é simples: queres viver ou não?
- Tu és o demônio! Somente ele viria me tentar desta forma tão vil!
- Somente ele? Que calúnia... Bem, esqueçamos as preferências... Responde-me!

Aloysius viu todos os corpos jogados à esmo ao seu redor. Rostos amigos e inimigos, e o solo embebido no sangue de ambos os lados. Na verdade ele sabia que não havia escolha a se fazer.

- Eu quero viver! – disse o monge numa súplica.
- Então viverás.
- T-tenho que assinar o pacto com meu sangue?
- Assinar com sangue? Que interessante... Vou pensar nisso para uma outra ocasião. No momento, tudo que tens a fazer é pegar na minha mão – o homem moreno estende a mão em direção ao monge. Aloysius treme de medo, porém agarra a mão de seu salvador com força.

Imediatamente ambos são elevados acima do monastério. Aloysius não acredita no que vê, afinal, ele esperava estar indo na direção exatamente oposta.

- Pela última vez: não sou teu diabo cristão.
- És um anjo, então?!
- Pff, nem de longe. Vês alguma asa emplumada em mim?
- Então... Um santo?
- Será divertido lidar contigo, mortal...
- Qual teu nome, santo? Dizei-me para que possa te louvar...
- Chamai-me Loki Laufeyson. Quanto aos louvores... não seriam de todo mal...

No bosque, escondidos por frondosas árvores, Gabriel e seu grupo emergiram pela saída do túnel secreto. Todos agradeceram a Deus por alcançarem novamente a luz do sol após o que pareceu uma caminhada interminável pela escuridão.

- Arf... Arf... N-não podemos nos deter muito tempo aqui... os bárbaros podem fazer uma revista pelos arredores... – disse Bartolhomew.
- Arf... d-duvido muito que ainda nos procurem... a esta altura já devem ter saciado sua sede de sangue... – resmungou Gabriel.

Um grito medonho atraiu a atenção de todos os fugitivos. Um deles, o irmão Crispim, o último a sair do túnel, tinha uma espada emergindo de seu peito. Sem esforço ele foi jogado para o lado, deslizando pela lâmina. Logo a figura de seu assassino surgiu completamente do túnel: Leif, o viking.
Os monges respiraram profundamente, num gesto de terror incontido. Seguindo o líder invasor, surgiram mais cinco guerreiros vestidos com roupas de couro. Leif apenas acenou com a cabeça. Seus homens compreenderam o gesto imediatamente e partiram para cima dos monges restantes. Gabriel ainda teve tempo de agarrar seu crucifixo de prata antes que uma espada rústica lhe abrisse o ventre. Bartolhomew foi trespassado por uma lança e teve seu corpo espetado à uma árvore, enquanto os demais monges tiveram seus corpos perfurados e rasgados até que o sangue escorresse túnel à dentro.
Leif ergueu a cabeça e voltou seu olhar para o monastério, que a esta altura já começava a arder em chamas.

- Em tua honra, minha senhora... – murmurou o bárbaro líder dos homens do norte.

Acima do cenário do massacre, flutuava uma figura feminina, visível apenas por Leif. Envolta em uma capa negra, que escondia parte de suas feições, Hela, a deusa da morte, deleitava-se com a oferenda sangrenta feita por seus súditos. Seu riso, semelhante ao grito de uma coruja prenunciando maus presságios, rasgou o campo de batalha, assustando os guerreiros vikings abaixo. Nenhum deles ousou olhar para cima em busca da visão do pássaro agourento.


SÃO FRANCISCO, E.U.A., HOJE

O rapaz chegou ao portão de sua casa pontualmente às 18:45 h., exatamente como sua mãe exigia. Ela vivia repetindo que o bairro estava se tornando uma vizinhança violenta e desde os estranhos acontecimentos rua acima [1], ela se preocupava mais ainda com o paradeiro do filho.
A explicação dada pelos bombeiros de que um cano de gás havia se rompido e causado toda a destruição no quarteirão acima não havia satisfeito sua mãe. Albert evitava pensar nisso, pois havia perdido duas conhecidas no acidente. Não eram suas amigas, mas mesmo assim a morte delas havia lhe transtornado. Meredith era apenas uma dessas meninas maluquinhas, incerta sobre quem era e sempre procurando por atenção e aceitação. Já Grace, bem, Grace era diferente.
Ele jamais admitiria na frente dela, mas sentia sua falta. Grace, dona do nariz mais empinado de todo o colégio. Uma pária, mesmo ente os párias. Porém, inteligente e de personalidade forte, alguém que ele...
Ele o quê? Gostaria de ter conhecido melhor?
Alguém que ele sempre soube que, apesar das agressões mútuas, lá no fundo ele...
Albert evitava pensar em Grace. Evitava pensar em qualquer coisa relacionada a ela. Ela estava morta e isso bastava. Procurou as chaves na mochila e rapidamente entrou em casa.
Não percebeu a figura que o observava empoleirada na árvore do jardim.
Uma grande e sinistra coruja.



Continua...
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Re: Laufeyson #03 - Ecos do Passado

Mensagempor João-Resgate em 10 Nov 2009, 08:28

Excelente capítulo Nerão!
A invasão do monastério foi muito bem construída, deu prá visualisar cada momento como se fosse um filme... Muito bom mesmo!
E o que será que vai rolar desse acordo do Aloysius com o Loki? Com certeza não será bom pro monge...hehehe
E esse final heim? Caceta... Sinto que um certo rapaz vai se ferrar bonito no próximo capítulo!
Meus parabéns Nerão! Tava com saudades desse título!
Aquele abração e até mais!
Confiram as aventuras de Antares
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Re: Laufeyson #03 - Ecos do Passado

Mensagempor marcelomoro em 17 Nov 2009, 09:57

shoooooooooooooooooooow de bola
um loki mais inteligente e não apenas inimigo de Thor é um prato cheio...
parabéns
--
MMoro


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